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GIL HEITOR CORTESÃO
Sem Título (MANIFESTAÇÃO), 2004
Óleo sobre vidro acrílico Díptico: 190 cm x 135 cm + 190cm x 100 cm Nº inv.: 04P1262
A verosimilhança desta grande cidade, os seus prédios e avenidas, é perturbada pela fragmentação visual do lugar do céu, transformado num painel de vários ecrãs quadrados de imagem. O breu e a tinta escorrida tornam-se assustadores, nesse contexto, como se do fundo deste céu pudessem surgir ameaças terríveis. Os próprios edifícios apresentam fachadas de cujo interior irrompem e transbordam manchas de tinta, escorrências, pinceladas que lhes desfazem a solidez. Como se o artista pudesse exprimir o desmoronamento da utopia do progresso, através dessa sabotagem arquitectónica.
A partir do ponto alto duma torre de vigia móvel e imaginária em que fomos colocados, apercebemo-nos dos movimentos da multidão, da sua arrumação compacta em filas ordeiras e densas. Da ventoinha gigante às entradas para o subsolo, a atmosfera é varrida por tonalidades fortes de vermelhos e verdes que surrealizam e intensificam o drama local: a vida esvai-se, difícil e sem sentido compreensível, na monótona e compacta regularidade da grande cidade, mesmo nos seus momentos de aparente alteração, como festas e manifestações colectivas.
É quase sempre de espaços urbanos que se ocupa a pintura de Gil Heitor Cortesão. “O natural não tem muita presença no meu trabalho (...); interessa-me o cultural e, portanto, o artificial”, diz o artista. Mas o ponto de vista aéreo que nos é dado ocupar situa-nos ao abrigo e à distância do tumulto. O lado de cá do vidro, a superfície que não está pintada mas que é virada para nós, cria um ecrã asséptico e silencioso entre o nosso lugar e aquele que vigiamos.
Integrada na exposição Mnémolopis (CAMJAP, 2004), esta pintura é necessariamente a representação duma cidade imaginária que os enigmas da memória e o poder perverso do esquecimento colocaram à beira da iminência apocalíptica.
Leonor Nazaré
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