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Ernesto CANTO DA MAIA (1890-1981)
Nasce em 1890, em Ponta Delgada, São Miguel (Açores). Morre em 1981, em Prestes, São Miguel.
Para Ernesto Canto da Maia, a escultura constituiu-se como uma espécie de diário pessoal, caracterizando-se pelo seu intimismo. A sua individualidade, muitas vezes apelidada alegoricamente de “insularidade”, deve muito à sua origem aristocrata, na qual adquiriu premissas de elegância e requinte.
Em 1907, vem para Lisboa, inscrevendo-se no Curso Geral de Desenho da Escola de Belas-Artes, que termina em 1911, deixando incompleto o 1.º ano do Curso Especial de Arquitectura. A sua entrada no contexto da modernidade portuguesa dá-se na exposição realizada no Salão dos Humoristas Portugueses, em 1912.
No final deste ano, iremos encontrá-lo em Paris, frequentando a academia Grande Chaumière, como discípulo de Bourdelle, que exerceu nessa época grande influência na sua obra, e a Escola de Belas-Artes de Paris.
Nesta fase, é à obra de Rodin que vai procurar inspiração: está presente nos volumes amplos, na modelação brutal anti-académica e na enorme força plástica, como no caso do trabalho Desespero da Dúvida, de 1916.
As suas obras possuem títulos muito literários, onde é crucial a transmissão da “ideia”, denotando a influência do Simbolismo. Um lirismo doce, de certo modo paganista, transparece na estilização serena e clássica, nos gestos solenes e na estaticidade dos corpos, que servem como veículos de subtis interioridades. Um dos exemplos desta sua estética de silêncios interiores é o grupo Beni soit le fruit de tes entrailles, obra apresentada com êxito no Salão de Outono de Paris, em 1922. A orientação das personagens é dirigida para o interior da composição, de forma a transmitir uma maior intimidade. Revela uma simplificação que foge à influência rodinesca inicial. Por outro lado, existe um amaneiramento das formas que contribui para a artificialidade do conjunto.
A aprendizagem com o escultor Júlio António em Madrid, em 1916, veio a originar uma mudança na sua obra. O par Comédia e Tragédia, apresentado no Salão de Outono de Paris, em 1926, é exemplo de uma inspiração arcaica, vigente na época, que se revela na presença monolítica de colunas, no hieratismo dos gestos e no esquematismo dos cabelos e panejamentos, influência da Grécia Pré-Clássica. As temáticas escolhidas surgem nesta lógica. Assim, por um lado, temos o teatro da dor na tragédia, e, por outro, uma imagem idêntica na aplicação dos contornos e volumes, mas que diverge no sentido contrário, o teatro da alegria e do riso que é a comédia, com gestos que falam de abertura, prazer e vontade de se expor numa voluptuosidade contida. Outro aspecto importante neste conjunto é o recurso à linguagem Art Déco, tendência consagrada na Exposição Internacional de Artes Decorativas de Paris, de 1925, na qual Canto da Maia participa com as estátuas Pomona e Flora, integradas nos jardins do Pavilhão da Cidade de Paris, do arquitecto Forestier, e que lhe valeram uma Menção Honrosa.
Em Lisboa participará no acontecimento mais significativo da época: a decoração do Bristol Club, lugar da máxima elegância, com o baixo-relevo A Dança e a Música, no qual se confirma a tendência Art Déco.
Até aqui, assinava as obras como Ernesto do Canto, mudando em 1927 a sua assinatura para Canto da Maia, evocativo da deusa indiana da Ilusão, o que confirma o interesse pelo lado hedónico da vida, que transparece em algumas das suas obras. O conjunto Adão e Eva, também conhecido como Juventude ou Hino de Amor (c. 1929), realizado em terracota policromada, é uma síntese das obras desta época. Para além da citação das esculturas etruscas, existe a preferência pelos temas bíblicos, o uso do barro como citação de uma materialidade ancestral, e evidentes ligações à Terra, que evoca muitas vezes nas temáticas das suas obras, fazendo alusão a uma melancolia de paraísos perdidos.
As composições que abordam o tema da família tornam-se constantes neste período: ora sob a forma da Virgem e do Menino, ora sob um aspecto trágico relacionado com acontecimentos pessoais, que se irá manifestar nas obras Filho Morto (1942) e Náufragos (1943), resultantes do afogamento do seu filho mais velho e da sucessiva morte de filhos prematuros no segundo casamento.
Os anos 40 e 50 são dedicados à produção da estatuária, dentro do espírito oficial. A obra de maior importância será o grupo monumental D. Manuel, Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, da Exposição da Comemoração do Duplo Centenário, em 1940, e que lhe valeu o Grau Oficial da Ordem de Santiago.
CARLA MENDES
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