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Carlos CALVET (1928)
Nasceu em Lisboa em 1928. É diplomado em Arquitectura pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto. Dedicou-se, no entanto, à pintura desde muito cedo. Apesar de considerar que 1944 é o ano do início da sua carreira como artista, só começa a expor em 1947. Completa, assim, em 2004, sessenta anos de carreira. Além da pintura e da arquitectura, interessa-se por outras áreas, como a fotografia e o cinema.
O Cubismo sintético é a primeira referência deste artista, logo em 1948. Braque é o pintor que mais o seduz. As naturezas-mortas deste período confirmam essa influência.
Nos anos de 1948 a 1950, encontra-se com os surrealistas, embora oficialmente não se afirme como tal, sendo apenas “um companheiro de caminho”. Dentro deste ambiente pratica, com Mário-Henrique Leiria e António Areal, a técnica do cadavre exquis e realiza algumas curtas-metragens surrealistas, uma das quais com a participação do poeta Mário Cesariny.
É na década de 60 que se afirma no meio artístico. Realiza, por um lado, obras que se situam entre um informalismo de definição orgânica, próximo da abstracção gestual influenciada pelas obras de Mathieu, e inicia uma fase construtivista e abstraccionista hard-edge. Por outro lado, a constante da sua obra define-se numa figuração pop, à qual se junta um paisagismo onírico e metafísico próximo de Giorgio de Chirico. Segundo José-Augusto França, Carlos Calvet envereda por uma categoria metafísica que a pintura nacional jamais ousou. As suas imagens, através de jogos muito hábeis de alterações do espaço cénico tradicional ou de associações pouco usuais das imagens e das ideias, provoca no espectador uma inquietação e uma excitação, não apenas da retina, mas, principalmente, da mente. Estas estranhas arquitecturas e perspectivas, escalas e enquadramentos insólitos, às quais se juntam objectos do quotidiano cuja significação transcende a habitual, levam a que o seu trabalho possa ser designado dentro da definição do “Fantástico”. Em 1986, na sequência de um colóquio realizado no ACARTE, na Fundação Calouste Gulbenkian, intitulado O Fantástico na Arte Contemporânea, expõe, juntamente com outros artistas, obras como Decantação Solitária, de 1949.
Alegoria à Brasileira do Chiado, de 1971, e Edificiária, de 1963, são exemplos deste jogo do absurdo. Abre quadros dentro do quadro, justapõe e contrapõe objectos. Obriga o espectador a uma leitura móvel, tendo em conta a multiplicação de perspectivas à qual se chamou “Espaciomaquia”.
São muitas vezes imagens irónicas e com algum humor. Os sentimentos de catástrofe, ameaça e ansiedade provocados no espectador fazem parte dos efeitos obtidos pelas imagens fantásticas. Disto é exemplo a obra Ansiedade e Terror em Lisboa, de 1980, na qual um mar de lamentos inunda a cidade e a faz estremecer. Ao longe, um mau presságio: nas areias de África já desponta o prenúncio de um desastre militar fatal, simbolizado pela caveira a surgir no mar, que, no topo da cabeça, tem representadas as cinco quinas.
Outra problemática constante no seu trabalho é a da geometria sagrada e da numerologia. Fez várias investigações relativas ao que chamou a singularidade de Pi (π). Destaca nestes estudos alguns números considerados mágicos, dentro de uma tradição pitagórica. É exemplo o número cinco, o primeiro que, sob a forma do pentágono, permite a construção de um polígono estrelado – o pentagrama pitagórico, símbolo do Homem aberto ao Cosmos: o cinco aberto ao seis. A enorme quantidade de referências esotéricas no seu trabalho torna a leitura das obras altamente hermética. A forma geométrica é explorada como arquétipo e como origem de tudo. A linguagem simbólica da sua pintura é uma linguagem aberta, mais do que à sensibilidade imediata, à sensibilidade conceptual.
Publicou recentemente Mitogeometria de Portugal e Outras Histórias, o que, por um lado, confirma a sua prática como escritor e, por outro, vem solidificar as suas teorias acerca da geometria sagrada. Nesse livro, faz a exploração esotérica da relação de Portugal com a questão do Quinto Império.
Na pintura Talassomaquia e o Homem do Renascimento, de 1983, retoma esta abordagem. Faz referência ao desabrochar perante o mundo como globalidade iniciado pelos Descobrimentos Portugueses. Nela encontramos o “Homem Vinciano” correlacionado com a luta com o mar, numa ânsia de descobrir o que fica para além do horizonte, tornando-se símbolo emblemático desta aventura; apropria-se da imagem Figura Supérflua ex Errore, de Leonardo da Vinci, onde nos é dado a ver um homem no seu movimento exaltante, a simbolizar a abertura em direcção ao Conhecimento.
CARLA MENDES
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