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Fernand Léger, Nature morte, 1928 / óleo sobre tela / 92x73 cm / nºinv: PE127 Click nas imagens para ampliar
 
Selecção de Artistas
 
 
 
   
   
 
   

Fernand LÉGER (1881-1955)

Nasceu em Argentan, em 1881, e morreu em Gif-sur-Yvette, em 1955.

Criar imagens simples para homens simples, assim resumiu toda a sua obra, o pintor que sempre acreditou numa sociedade progressista e num mundo melhor, mais igualitário, onde a arte se devia assumir como agente interveniente no seu tempo. Léger viu a pintura como um terreno aberto à pesquisa formal e cromática, onde os temas, recorrentes se manifestavam, ora submissos ora destacados do ambiente envolvente da composição.

Recém-chegado a Paris em 1900, Léger encontra trabalho num ateliê de arquitectura. Recusado pela École des Beaux-Arts, inscreve-se na École des Arts Décoratifs e frequenta em simultâneo a Académie Julian. São os impressionistas e Cézanne que marcam o início do seu percurso. A abolição do claro/escuro pelos impressionistas e o novo olhar sobre a realidade de Cézanne determinam a sua relação com a cor e com a forma.

Em 1911, Daniel Kahnweiler abre-lhe as portas da galeria de Paris, e Léger passa a ocupar um lugar junto ao grupo cubista, sem nunca integrar as facções de Montmartre ou Montparnasse. Frequentador assíduo do ateliê do escultor Jacques Villon, Léger viu na exposição dos futuristas (Galerie Bernstein, Paris, 1912) uma dinâmica e um movimento que encontram eco na sua teoria dos contrastes múltiplos, em que forma e cor devem ser justapostas de maneira isolada e contrastante, em quebra com o continuum orgânico da natureza. Esta alternância confere aos quadros acção e ritmo, e a cor ganha, por sua vez, primazia, numa vertente prosaica, desprovida de qualquer intenção simbólica ou espiritual.

Após uma breve e personalizada passagem pela experiência cubista, onde se anuncia já o “tubismo” que cruzará a sua obra até meados dos anos 20 (La Noce, 1910-1911; Les Fumeurs, 1911; La Femme en bleu, 1912), Léger assume a partir de 1914 uma figuração clara e inequívoca.
 
O mundo moderno lançava o seu apelo, o objecto técnico e mecânico funde-se com o homem e com a cidade e acaba por vencer apoiado pelo advento da Primeira Grande Guerra. Entre 1918 e 1920, Léger explora a frieza metálica sugerida pela artilharia em obras como La Partie de cartes, de 1917, em que revela a sua opção de representar momentos de pausa e de lazer, em oposição ao trabalho, numa glorificação da liberdade, da igualdade e da fraternidade entre os homens.

Oriundo do campo, as suas preocupações sociais integram também a arquitectura das novas cidades. Em 1925, elabora, com Robert Delaunay, a decoração para um projecto do arquitecto Mallet-Stevens, destinado à Exposition des Arts Décoratifs. No mesmo ano cria as composições murais para o Pavillon de l’Esprit Nouveau de Le Corbusier.

Desenha os cenários e o guarda-roupa dos bailados de Rolf de Maré, Skating Ring (1922), e de Blaise Cendrars, Création du monde (1923). Léger prefere o ballet ao teatro, o movimento à palavra, e o cinema a ambos, por reunir premissas que considera fundamentais: é produzido mecanicamente, dirige-se a um público alargado e anónimo e permite animar objectos inanimados. Colabora com Blaise Cendrars no La Roue (1921), de Abel Gance; no Inhumaine (1923), de L’Herbier, e realiza, no ano seguinte, em parceria com Man Ray, o Ballet mécanique, filme que consagra a vitória do objecto.

A necessidade de transmitir as suas convicções leva-o a fundar com Ozenfant um ateliê livre, em 1924. Em 1932, é nomeado professor na Grande Chaumière e, em 1940, dá aulas na Universidade de Yale, nos EUA.

Ao “período mecânico” sucedem-se o homem e a natureza e, a partir de 1924, a coisa, o objecto. Em 1925, a natureza morta, sob a forma de artigos de uso corrente como guarda-sóis, bolas, balaustradas ou cartas de jogar, serve de mote para uma nova experiência plástica: a estrutura passa para primeiro plano, as referências de composição e a rígida ordenação geométrica desaparecem. As figuras flutuam no espaço, e os objectos, personagens e formas geométricas justapõem-se. Joconde aux clefs (1930) – e as obras dos anos 30 e princípio de 40 –, podia ser visto como um piscar de olho à experiência surrealista, mas, uma vez mais, o que interessa a Léger é a experiência plástica dos contrastes, sem mensagens subjacentes ou alusões ao inconsciente.

Os anos 30 abrem com uma série de exposições no estrangeiro: Nova Iorque, 1931, 1935 e 1938; Zurique, 1933; Estocolmo, 1934. Esta década é marcada pelas grandes composições figurativas, verdadeiros work in progress, onde surgem as figuras que caracterizam a sua obra até ao final: ginastas, acrobatas e artistas, representados numa postura descontraída, numa fusão feliz entre o mundo real e o ideal (Adam et Eve, 1935-1939; Composition aux deux perroquets, 1935-1939).
Em 1940, parte para os Estados Unidos. Os anúncios luminosos de Times Square inspiram-no na aplicação de faixas coloridas autónomas nas composições (La Partie de campagne, 1943-1951; La Grande parade, 1940-1954), e as figuras humanizam-se, exalando uma serenidade contrastante com a dureza das personagens dos primeiros anos.

Os anos 50 revelam Léger como um artista de grandes composições, e o mural como um veículo de expressão da mensagem social que a arte deve transportar. A sua visão “socialista” da arte tem na composição mural para a sala grande da ONU, em Nova Iorque, a sua máxima expressão: Léger levava a sua arte ao centro da organização garante da paz e dignidade. A arte aliava-se ao mundo, um mundo melhor.

SANDRA SANTOS