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GAËTAN (1944)
Gaëtan nasceu em Luanda em 1944. É um dos artistas que mais proficuamente problematizaram a questão do desenho, num país em que esta disciplina se erigiu, desde a década de 60, como o campo mais fértil em termos de conceptualização e de indagação dos limites linguísticos e disciplinares da arte. Gaëtan tem feito uma desconstrução radical do seu próprio rosto, numa perturbante e misteriosa investigação, cujos contornos se situam no âmago mesmo do ser, na experiência da transcendência, “a única revelação possível da maravilha da ideia e do infinito”, nas palavras de Lévinas.
Após um começo de percurso, no final dos anos 70, em que o papel é utilizado, já não como suporte, mas como material a modelar, o seu trabalho comunga das tendências vanguardistas então em voga e respectivos leitmotiven – o apelo à participação do espectador, a utilização de materiais pobres e a sua fragilização –, principiando a esboçar-se no trabalho de Gaëtan um apelo à transgressão feito através da mediação do próprio corpo.
O mote é dado pela série Quantum Santis (1981), na qual o desenho, um risco a tinta-da-china sobre aguada, é acompanhado da frase “desenhado à faca este risco pode ser mortal”. O território do desenho é assim definido como zona de perigosidade, de emergência.
Instável, o desenho é instigado por uma vontade de desacerto. Apesar de ser destro, Gaëtan estabeleceu como premissa desenhar com a mão esquerda, numa clara intenção de erradicar do seu fazer quaisquer resíduos de academismo. O traço é inscrição, umas vezes mordaz e satírica, outras impiedosa e violenta. Inscrição que se tece nos meandros da memória, que se traça a partir de recônditas reminiscências.
A partir de 1981, Gaëtan desenvolve obsessivamente um tratamento deveras singular da temática do auto-retrato. A sua investigação desenvolve-se desde então como uma arte da fuga, feita de variações sobre o mesmo tema, o seu rosto. Entre o olhar irónico e o esgar de desespero, os auto-retratos de Gaëtan interrogam a natureza da sua existência, enquanto desenhos e enquanto indagação do “Eu”, enquanto retratos de um mesmo rosto que se constrói a partir de imperceptíveis dissemelhanças. “O que me interessa, perante este espelho, é registar o que vejo. Há uma preocupação muito grande em relação ao que estou a ver. E depois sai-me, parece que sai, tudo trocado. Eu olho tão intensa e fixamente o espelho, para ver o que vejo, que devo tresler o real [...]”.
Com o desenvolvimento desta reflexão, algumas questões emergem com maior ou menor intensidade, com maior ou menor persistência. O fazer assume-se como análise de si mesmo, como questionamento do seu valor enquanto arte, da sua evolução, do seu envelhecer e até mesmo da sua morte; o desenho vai-se progressivamente tornando evocação, não só do tempo, que inexoravelmente passa, mas também das obras que o precedem; a variação dos tempos de execução do desenho em relação com as referências eruditas, que remetem usualmente para a natureza da obra que intitulam, impõe o tempo e a memória como os verdadeiros temas do trabalho de Gaëtan.
NUNO FARIA
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