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Michael BIBERSTEIN (1948)
Nascido em Solothurn, na Suíça, em 1948, Michael Biberstein vive e trabalha em Portugal há cerca de duas décadas. A sua pesquisa incide sobretudo na temática da paisagem, e o seu trabalho, com larga circulação e reconhecimento internacional, tem-se desenvolvido em torno da reabilitação do carácter metafísico da arte, devolvendo ao espectador a pureza e agudeza do olhar, através de um metódico questionamento da validade da pintura e das noções de belo e de sublime.
Depois de ter estudado História da Arte com David Sylvester, no começo dos anos 70, e de se ter dedicado, desde essa altura, aos primeiros ensaios pictóricos paisagísticos, Biberstein interessou-se pela estrutura e pelos mecanismos artísticos, tendo desenvolvido um longo processo analítico, que se prolongou até ao início da década seguinte. Através da desconstrução dos diversos componentes de uma pintura (por exemplo, as camadas de tinta, representadas por grandes superfícies de gaze fina, expostas tridimensionalmente), Biberstein explorou os constituintes materiais, a sua objectualidade e dimensão espacial, expondo-os explicitamente à consciência perceptiva dos espectadores, num procedimento ao qual não será alheia a influência do grupo Support-Surface.
Sendo menos um exercício de estilo, que uma demanda da viabilidade intrínseca e discursiva de uma linguagem vítima da iconoclastia, tão característica das experiências artísticas do século XX, esta auto-reflexividade, que Biberstein impõe à sua pintura e a si mesmo enquanto pintor, resultará na consciencialização de que a pintura enquanto actividade pode ainda produzir sentido e interagir com a realidade vivencial do indivíduo por via da experiência.
Se o artista encontrou na tradição a camada de memória que as suas obras evocam e consubstanciam, não é menos verdade que as suas pinturas veiculam uma refinada e contemporânea proposta perceptiva. De facto, as suas grandes pinturas de paisagem, em que, a um tempo, é notória a presença de uma sensibilidade tipicamente norte-europeia e de influências da pintura tradicional chinesa, são balizadas por um quadro conceptual que é claramente marcado pelos ensinamentos do minimalismo norte-americano; não raramente vêm acompanhadas de dispositivos de enquadramento e orientação, a lembrar as propostas dos artistas da Land Art, que são afinal marcos que posicionam fisicamente o espectador. Deste modo se compreende que a pintura de Michael Biberstein é para ver com o corpo todo, apreendida que deve ser como metáfora da experiência globalizante e inefável de uma realidade transcendente, i.e., a natureza.
Aí reside o paradoxo proposto pela pintura de Biberstein, que é, afinal, o paradoxo da pintura de paisagem norteada pela questão do sublime. É que, apesar de para Biberstein as pinturas serem objectos físicos, finitos na sua concretude, elas são também veículos para a figuração desse sentimento de indizibilidade que se apodera do observador quando confrontado com uma realidade física – normalmente, uma montanha, um pico, uma cordilheira, o mar na sua infinitude – que suplanta o seu entendimento racional e cuja percepção se situa precisamente no campo da invisibilidade.
NUNO FARIA
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