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-   Dominguez Alvarez, D. Quixote, 1934, nºinv: 83P445
Dominguez Alvarez, D. Quixote, 1934, nºinv: 83P445

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Selecção de Artistas
 
 
 
   
   
 
   

Dominguez ALVAREZ (1906-1942)

Natural do Porto, onde nasce em 1906, José Cândido Domínguez Álvarez inicia, em 1926, estudos de Arquitectura na ESBAP, pedindo transferência para o curso de Pintura em 1928, que termina só em 1940. A média de 20 valores com que o conclui pouco mais lhe oferece do que um cargo docente na Escola Industrial Infante D. Henrique, no Porto.

Ao longo da sua curta vida (Álvarez morre em 1942, vítima de tuberculose), participa em poucas exposições colectivas, destacando-se a do grupo “+ Além” (1929), onde a crítica ao ensino académico e naturalista de Marques de Oliveira marca as diferentes opções estéticas dos seus participantes.

Muito apreciada pelos presencistas, mas marginal em relação aos padrões oficiais, a obra de Álvarez ver-se-á recusada, na IV Exposição de Arte Moderna do SPN (1939). No ano seguinte, uma única pintura sua será aceite pela organização do certame, mas ficará colocada em más condições.

Se em vida realiza apenas uma exposição individual (Salão Silva Porto, 1936), após a sua morte, a sua obra continua a ser alvo de atenção irregular. Em 1942, e sob os auspícios do Instituto de Alta Cultura, de que fora bolseiro (1940-1942), realiza-se nova individual, com organização dos pintores Dórdio Gomes e Camarinha.
 
Em 1951, no Ateneu Comercial do Porto, Fernando Lanhas, Alberto de Serpa e João Menéres põem de pé a primeira retrospectiva, exemplo seguido, em 1958, pela Academia e Galeria Portuense, destinada a mostrar arte moderna, e à qual é dado o seu nome. Em 1963, a exposição na Cooperativa Gravura marca fronteira com o silêncio, apenas quebrado em 1987 com a retrospectiva de Serralves. Em 2002, a Cooperativa Árvore organiza, na Galeria de Vilar, nova mostra da sua obra.

A saúde débil, que lhe encerrará cedo o ciclo da vida e o impede de trabalhar como deseja, não lhe quebra, porém, a vontade. Com efeito, Álvarez multiplica-se em esforços, estudando, pintando e pensando também sobre arte, nomeadamente nos escritos (enciclopédicos, mas não raro teoricamente incoerentes) publicados no Jornal de Notícias (1934-1940).

Filho de um casal de galegos, obtém nacionalidade portuguesa em 1936, para escapar à Guerra Civil Espanhola. Ao longo da vida, as suas referências permanecerão galegas e castelhanas, como o demonstra a sua colaboração no grupo “+ Além”, em cuja redacção do manifesto participa, numa clara adaptação do similar galego (“Máis Alá”, 1925). O mesmo se evidencia nas poucas viagens que faz (não visitará sequer Lisboa, nem a sonhada Paris, onde a maioria dos nossos modernistas reclamava herança e inspiração plástica), não bebendo de outras luzes e experiências artísticas para além das que busca ávida e continuamente em El Greco, nas ocasionais visitas a Espanha. Terá, porventura, viajado mais pelo interior dessa pintura escura e escusa do que pelo mundo exterior. E, mesmo nesse, as leituras dos castelos altaneiros, das paisagens com atmosferas sonolentas e oníricas, ter-se-ão fundido com um universo de influências picarescas. O seu D. Quixote, face arquitectónica e auto-evocativa da solidão do pintor, espelha fielmente um mundo interior de silêncio e sombras. De resto, a todos os seus mestres galegos, como Castelao, Solana ou Maside, para citar apenas alguns, vai ele buscar as distorções da paisagem ou da figura, as atmosferas inquietantes e abandonadas, que recria nas suas pinturas. Síntese desses universos pesados e lúgubres com uma vivência atormentada, a pintura de Álvarez, servida por um traço de grande expressividade e sinceridade, dedica-se a temas simples, humildes, de todos os dias, num registo quotidiano transformado e medido ao peso da dor, de uma total ausência de esperança.

Na arquitectura linear da sua obra, qualquer alteração da geometria balança o mundo, tornando-se consequentemente agente de perturbação. O seu trabalho pode dividir-se em três fases. Uma primeira, iniciada em 1927, denominada “vermelha”, revela uma paleta de cores alegres, em diálogo com negros, cinzas e brancos, que se modelam para a criação de paisagens urbanas, onde telhados rubros coroam cenários de luz singelos e toscos. Em 1930, uma incursão pelo abstraccionismo permite-lhe ainda o uso dessa paleta aberta, quase festiva, sobretudo quando entra no campo da aguarela, em que também experimenta uma gramática cubista. Porém, logo desde esse ano e até 1937, opera-se uma importante alteração, começando a fase dos quadros fantásticos, de inspiração espanhola, num paisagismo dramático e intenso, em que perpassam retratos urbanos, campestres ou rostos. Loucos, cemitérios, igrejas, montes estabelecem os contornos de personagens de um universo inquietante e misterioso. A paleta torna-se opaca, abraçando uma luz de oiro velho e negro, que pressagia a morte, vivendo a composição de linhas tensas, desfiadas, alongadas, que mesmo quando a estruturam ao eixo, verticalmente, a fazem abalar no traçado de uma oblíqua (de que é claro exemplo a tela D. Quixote), instaurando a dúvida e a conturbação. A paleta, povoada de sombras, mesmo quando aparentemente feliz, entra em agonia no apertado diálogo com a composição, em que a instabilidade do cenário, operada pela inquietação das linhas que nos fazem tremer o olhar, nos mostra o quanto é frágil a racionalidade e agónica a vida.

EMÍLIA FERREIRA