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-   Manuel Baptista, Leque, 1982, nº inv.: 83P1000
Manuel Baptista, Leque, 1982, nº inv.: 83P1000

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Selecção de Artistas
 
 
 
   
   
 
   

Manuel BAPTISTA (1936)

Nasceu em Faro em 1936. Em 1957, matricula-se em Arquitectura, curso que abandona para se dedicar exclusivamente à pintura. Em 1962, conclui o Curso Complementar de Pintura na ESBAL. Entre 1962 e 1963, está em Paris como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e, em 1968, em Ravena, como bolseiro da Alta Cultura. Foi assistente de Pintura na ESBAL entre 1964 e 1972. A partir de 1977, desloca-se regularmente a Lippstadte e Schmallenberg, na Alemanha, onde trabalha e realiza tapeçarias para a fábrica Folke. Vive e trabalha em Faro e em Lisboa.

Começa a expor em 1956 e, em 1959, participa, nomeadamente, no Salão de Artistas Independentes na SNBA. Na década de 60, podem destacar-se as participações no III Salão de Arte Moderna na SNBA e no “Fifth International Hallmark Art Award” (Nova Iorque, 1960), na Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian (1961) ou no V Salão de Arte Moderna na SNBA, com trabalhos de relevo e recorte uniformemente brancos. São importantes as individuais nas galerias Diário de Notícias (1963), 111 (1965) e Quadrante (1967).

Os trabalhos da década de 50 podem contemplar temáticas como a lavadeira, as peixeiras num mercado, trabalhadores em actividade, uma doca, um casario. A informalidade de desenhos, feitos sobre apontamentos de matemática, surge a par de naturezas-mortas de eco matisseano, de traço sumário mas expressivo. Palhaços e saltimbancos são definidos pelo tragicómico, com uma linha nervosa, expressionista. Alguma influência de Miró e Klee é visível em certos registos a aguarela e tinta-da-china. Aguadas sobre um desenho rápido mancham figuras a correr ou sentadas à mesa.

A partir de 1959, a abstracção torna-se dominante: zonas informalmente geométricas sobre fundo escuro são preenchidas por novelos, tracejados e padrões territorializados.

Na década de 1960, desenvolve esta disposição abstractizante e de valorização do suporte, com aglomerações rugosas de panos colados, modulação de relevos em positivo/negativo, recorte geométrico dos suportes, quadrículas de base e colagem de camadas. No desenho, tinta-da-china e cores diluídas dão uma vaga volumetria a perímetros e tracejados. O traço é liberto, a mancha assegura equilíbrios entre o aberto e o fechado, surgem texturas em tons terrosos e configurações entre o orgânico e o geométrico. Em 1963, há um desenho em forma de baralho, que prenuncia um motivo mais tarde privilegiado em séries expostas em 1973 ou 1984 – o semicírculo ou o leque. Em 1966, na Galeria Quadrante, exibe uma série de monocromias. Em 1968, obtém  o 1.º Prémio de Pintura do “Prémio Guérin de Artes Plásticas” e, em 1970, o “Prémio Soquil”.

Em 1973, está na Bienal de São Paulo e, em 1981, fará uma individual no Museu de Arte de São Paulo. A década de 70 é de vigorosa afirmação desse trabalho de desconstrução e recomposição das superfícies, de tela recortada e colada, como entretela e pespontos de alfaiate. A sugestão paisagística cruza-se com a ornamental, o retalho com o padrão, as nervuras (rectas e curvas) fractalizam os contornos, complexificam desdobramentos e folheados. O formato da árvore insinua-se ciclicamente e permanece ainda hoje. Acerca da cor, diz Rui Mário Gonçalves em 1973 que “as cores hesitam entre serem alusivas a materiais velhos ou francamente artificiais, industriais, com efeitos alegres”.

Durante os anos 80, surgem mais dois prémios:  o de Pintura na I Exposição de Arte Moderna ARUS e o “Grande Prémio da 6.ª Bienal de Vila Nova de Cerveira”. Deve assinalar-se uma individual no Kunstverein, em Kassel, e a participação em três colectivas: na Kompositionen im Halbrund – Facherblatter aus vier Jahrhunderten, na III Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian e a exposição 70-80 Arte Portuguesa, que fez itinerância no Brasil.

O recorte da própria tela (oval, circular, hexagonal, em leque, etc.) é congénere de decisões formais de preenchimento, que, por sua vez, se submetem a alguma improvisação na deriva. Nas zonas estriadas podem ler-se perfis de montanha, pregas do corpo, a abertura de uma lente fotográfica, camadas geológicas, corte de roupa, estruturas e texturas, fundo e figura, latência visceral e plasticidade pura. De 1992 a 1994, expõe individualmente na Galeria Quadrado Azul, na Galeria Luís Serpa e no Museu de Amarante. A Casa da Cerca organiza em 1996 uma importante antológica do seu trabalho em desenho. Na mais recente individual, na Galeria Cristina Guerra, utilizou “Sympatex” um material industrial de borracha texturada em camadas coladas e sucessivas, em cujo relevo esculpiu árvores ou as formas abstractas que se tornam as do seu próprio vocabulário. O amarelo, o azul forte ou o preto, o cinzento e o branco continuam a ser tratados em função do seu valor plástico e luminoso.

LEONOR NAZARÉ