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Nuno Cera,Smog #17 (da série Corridors), 2000,acrílico, impressão a cores e alumínio,60x45cm,inv.n.: 2000FP340 Click nas imagens para ampliar
 
Selecção de Artistas
 
 
 
   
   
 
   

Nuno CERA (1972)

Nuno Cera nasce em 1972, em Beja. Possui o curso superior de Publicidade do IADE, mas é a partir da prática quotidiana da fotografia, que o artista traça as linhas fundamentais da sua intervenção artística. Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, do Musée Nicéphore Nièpce e da Jetlag Lx Macau 1999. A sua estada em Berlim em 2001, enquanto artista residente (bolsa João Hogan, Fundação Calouste Gulbenkian), pode ser considerada uma etapa decisiva para o desenvolvimento da sua carreira, que, a partir daí, se vai dividir entre Berlim e Lisboa.

O seu trabalho tem por base, desde o início, a pesquisa e o levantamento de questões de natureza fotográfica, apresentando, sobretudo depois de 1995, características que nos permitem perceber a sua recente deslocação para o território do cinema.

As fotografias de Nuno Cera contrariam qualquer ideia de estatismo, de frontalidade ou de pose. Nos vários temas que tem desenvolvido, está sempre implícita uma lógica de viagem ou de deslocação. O olhar do artista selecciona cuidadosamente os planos em que as linhas de passagem ou os pontos de fuga se revelam como ordenadores de todo o seu pensamento visual. Encontramo-los nos lugares mais imediatos de contexto urbano, como o traçado de auto-estradas, túneis ou caminhos-de-ferro, ou, de um outro modo, nas marcações do céu deixadas pela deslocação dos aviões, das estrelas cadentes ou, ainda, no registo do movimento do sol através das árvores, na definição dos trilhos e dos caminhos da floresta.

Na série de fotografias The Corridors, 2001 (Corridors – 6, colecção CAMJAP) surgem-nos imagens de seis passagens estreitas, sem saída à vista, corredores anónimos encontrados no acaso das grandes cidades. São deliberadas repetições de enquadramento, cuja fixação no mesmo ângulo perspectiva um inevitável ponto de fuga, um caminho vazio, a dar acesso a outros espaços desconhecidos. Estes corredores vazios não deixam de convocar a presença humana. São espaços destinados a ser atravessados. As figuras que surgem no seu trabalho inscrevem-se na mesma dinâmica. Dificilmente se poderão denominar retratos, mesmo que os personagens sejam identificáveis, mesmo que a ideia de pose se adivinhe por detrás do planeamento de uma acção. Na realidade, são figuras também elas em deslocação real, ou em qualquer outro estado de movimento, físico ou psicológico.

Nuno Cera procura capturar o instante de um gesto, indiferente ao seu significado ou conteúdo dramático. Mesmo quando a sugestão de qualquer narrativa parece surgir, como na série Everything Must Go (2002), em que várias mulheres parecem ser surpreendidas num momento de choro, é de um estado de transição que se trata.

Depois de uma década a trabalhar em fotografia, o artista realiza o primeiro filme, projecto da sua residência no Kunstlerhaus Bethanien, em Berlim, e que correspondeu à sua primeira exibição fora da Europa (I-20 Gallery, Nova Iorque, 2003). Berlin, feito a partir de 4200 fotografias, é um filme em Super 8 que lhe permite experimentar visualmente todas as possibilidades de relação entre a fotografia e o cinema. Capturar o conceito de uma cidade global, através de imagens fragmentares, concentrar o tempo e o espaço na expressão desse pulsar cosmopolita, com súbitas e recorrentes mudanças de velocidade, são alguns dos objectivos explicados pelo artista para a realização deste trabalho.

Entre o artista e a cidade tornada personagem não há lugar para intermediários, mediadores narrativos ou quaisquer conteúdos interpretativos. Em NYC (2003), Nova Iorque é objecto de uma idêntica perspectiva, filmada como um corpo autónomo a deslocar-se em vertiginosas arritmias. Também aqui o olhar do artista se mostra apto a percorrer velozmente os tradicionais espaços de passagens – túneis, estradas – ou a transformar as diferentes massas arquitectónicas em volumes que atravessam o espaço.

No trabalho de Nuno Cera, a paisagem pode ser olhada como um todo ou como um fragmento. Há uma permanente circulação de imagens entre os filmes e as fotografias, um sistemático reconhecimento e um inevitável espaço de contaminação.     Se recordarmos o sentido do seu trabalho fotográfico, pode-se sempre pensar no cinema como uma sequência natural, quase um destino.

Em 2003, Nuno Cera foi seleccionado por um júri internacional para o festival Fair Play, que decorreu na Play Gallery for Still and Motion Pictures, em Berlim, galeria direccionada para artistas emergentes que trabalham nas áreas de vídeo-arte, cinema e animação. Este é um dado curricular expressivo do seu território de intervenção e de uma crescente afirmação internacional.

HELENA DE FREITAS