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Joaquim BRAVO (1935-1990)
Joaquim Bravo nasceu em Évora, em 1935. Artista autodidacta, frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa e adquiriu uma sólida formação cultural nos domínios da literatura e da filosofia. As relações de amizade, que estabeleceu com Álvaro Lapa, Charrua, Palolo e Areal, a partir dos anos 60, contribuíram para definir um campo de intervenção cultural, marcado por valores literários de raiz surrealista e de actualização dadaísta.
Em 1963, realizou a sua primeira exposição individual na Galeria 111, em Lisboa, marcada pela influência directa do expressionismo abstracto pollockiano, que obteve da parte da crítica um inesperado acolhimento. Na sequência deste “fácil” sucesso, resolve viajar pela Alemanha, onde acaba por se fixar durante dois anos. 1964 pode ser considerado um ano de ruptura e um marco fundamental para a evolução do seu trabalho. Sem qualquer enquadramento artístico de carácter profissional, Bravo não deixa de transformar a sua passagem pela Alemanha numa reorganização de trabalho e de referências. Percorre museus e galerias e desloca-se a Kassel para estudar a IV Documenta. Aqui pôde tomar contacto com a vanguarda internacional, aperceber-se das novas tensões e reavaliar o caminho percorrido. Também aqui tomou contacto com os artistas emergentes da Nova Abstracção e os primeiros enunciados da Pop Art. O artista assinalou os artistas que mais o influenciaram – de um lado Ellsworth Kelly e Morris Louis, do outro Rauschenberg e Jasper Johns, artistas cuja ascendência formal é reconhecível, mas quase sempre sob o pretexto de uma traição.
Bravo abandona em definitivo os caminhos formais do Expressionismo, mas não deixará nunca de permanecer vinculado a alguns princípios de trabalho que não irá abandonar – a rejeição global das tradições ilusionistas da pintura europeia, a ideia de mito e do sentido ritualista do fazer, a arte como aventura. Partindo destas premissas, o artista prossegue uma pesquisa pessoal, definida por uma atitude de recusa ao mundo estabelecido das artes plásticas, e de desvio relativamente a movimentos e correntes estéticas, construindo uma espécie de território de exclusão.
O seu trabalho desenvolve-se como um acto mental, que pretende a renovação de uma poética abstracta. Paul Klee, Malevitch, Duchamp ou Picabia são artistas que o autor utiliza como base de um discurso de instabilidades que dificilmente se pode classificar.
Quando regressa a Portugal, em 1966, fixa-se na cidade de Lagos. De 1966 a 1971, só esporadicamente irá a público em exposições colectivas. Mas o seu trabalho é intenso, sobretudo na área do desenho, que vai desenvolver num ritmo veloz, em séries sucessivas, por vezes sobrepostas, muitas outras contraditórias ou imprevisíveis. Joaquim Bravo está nesta fase no domínio da pura inventividade e total liberdade de acção. Destes anos chegam-nos também duas esculturas referenciais Pato (1967-1969) e Bota Romana (1969). É como desenhador que Joaquim Bravo demarca o seu espaço de pesquisa pessoal. Actividade introspectiva e de recolhimento, permite-lhe estabelecer “itinerários de fuga”, em séries sucessivas em que tenta desmontar as suas próprias referências, num processo criativo de procura sistemática de soluções formais desconhecidas. A pintura representava, para o artista, a extroversão desse pensamento plástico, a notícia clarificada desses estados anteriores.
O início da década de 70 corresponde a um regresso de Joaquim Bravo às galerias. Em 1971, expõe individualmente na Quadrante, em Lisboa, pinturas, desenhos e uma escultura, um conjunto de trabalhos aproximáveis de uma estética hard-edge, de estruturas geométricas simplificadas e planos de cor bem definidos. Nos dois anos seguintes, o artista vai expor na Galeria Buchholz, a convite de Rui Mário Gonçalves, pinturas munidas de uma poderosa informação visual, mas que evidenciam a consolidação de um vocabulário pessoal. Joaquim Bravo utiliza em pleno o poder do gesto, a hábil manipulação da geometria e uma poderosa energia plástica para armadilhar todo o discurso de tranquilidade da “nova geometria”.
Entre 1973 e 1982, o artista não realiza qualquer exposição individual. É mais um longo período de afastamento e introspecção, apenas pontuado por episódicas participações em colectivas.
O seu regresso fica marcado por um convite pessoal de António Cerveira Pinto para expor na Galeria Municipal de Artes Visuais em Setúbal. Daí para a frente, o artista não mais se vai isolar. A lógica de mercado torna-se implacável e, em 1984, Joaquim Bravo aceita o convite de Maria Nobre Franco para integrar a futura galeria EMI-Valentim de Carvalho, onde vai expor individualmente em 1986, 1987 e 1989.
Sem metáforas nem narrativas, o trabalho de Joaquim Bravo avança nestes anos com à-vontade na utilização livre dos seus referentes e recuperando muito do seu vocabulário anterior. Há também uma manifesta abertura poética, e os próprios títulos são indicadores dessa inclinação.
O conjunto da sua produção, que articula em autonomia valores literários e visuais, foi uma referência fundamental para alguns artistas emergentes nos anos 80 e de expressões tão divergentes como Pedro Cabrita Reis, Xana ou João Paulo Feliciano. Morre em Lisboa, em 1990, em plena fase de criação e de reconhecimento público e institucional.
Em 2000, o CAMJAP da Fundação Calouste Gulbenkian organiza a sua primeira exposição retrospectiva, com um vasto conjunto articulado de pinturas, desenhos e esculturas.
HELENA DE FREITAS
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