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-   Miguel Branco, S/título, 1999, nº inv.: 00P1030
Miguel Branco, S/título, 1999, nº inv.: 00P1030

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Selecção de Artistas
 
 
 
   
   
 
   

Miguel BRANCO (1963)

Miguel Branco (n. Lisboa, 1963) estudou Pintura na ESBAL. A primeira exposição, atípica se comparada com as suas mostras ulteriores, intitulava-se Objectos Discretos e ocorreu em 1988. Era composta de curiosas e irónicas pequenas figuras humanas, moldadas em terracota monocromada, colocadas individualmente em expositores de ferro iluminados interiormente. Estas esculturas imobilizavam, prolongadas no tempo, atitudes fugazes e aparentemente fúteis (fumar, espremer borbulhas, bocejar, coçar os genitais, etc.), que ganhavam, graças a uma iluminação directa, um absurdo estatuto de relevância pública.

As exposições que se seguiram consolidaram o seu estilo. O grosso da produção de Miguel Branco, entre o final da década de 80 e meados da década seguinte, consiste em pinturas a óleo sobre madeira ou tela de pequenas dimensões (oscilando normalmente entre os 20 e os 40 centímetros), ordenadas por séries ou tematicamente, que representam animais (normalmente um só animal) ou objectos (caveiras, tigelas).
Embora as figuras que compõem o seu bestiário – avestruzes, galinhas, cães, macacos – provenham de observação e captação fotográfica, o olhar que as selecciona é já pictórico. A pose escolhida não é alterada pela mão do pintor; no entanto, esse real é encenado, cuidadosamente seleccionado para que não seja naturalista, nem tombe no extremo oposto, a artificialidade.

Apesar de convocarem uma série de características conotadas com a pintura de género – uma maneira antiga de pintar, o cuidado extremo posto na declinação da luz, a estranheza do tema animalesco –, estas pinturas não remetem para o passado ou para a tradição como horizonte de deslumbramento. Nada está mais longe do pitoresco. Por duas razões essenciais: se, por um lado, a importância do tema é claramente subalternizada (a repetição pela apresentação em série conduz à sua erosão), por outro lado, qualquer tentativa de leitura figurativa, pelos cânones normais da representação, está votada ao insucesso. Para essa impossibilidade concorre um hábil jogo de agenciamento, em que determinados elementos se desmentem reciprocamente: a inexpressividade narrativa; a miscigenação da figura com o fundo e com o chão; a descontextualização do lugar; a proveniência incerta e insólita das sombras desenhadas pelas figuras e de algumas pinceladas de cor que parecem salpicar a superfície de tons semelhantes aos da matéria que compõe o corpo da figura. Os espaços propostos nestas pinturas surgem, então, como cenários ambíguos (interior ou exterior), banhados por uma iluminação operática, e a sua individualidade é implantada através de um processo de esvaziamento semântico e narrativo.

Após um interregno de alguns anos sem expor individualmente, Miguel Branco soube aparentemente reinventar o seu universo de referências. Ressurge no final da década de 90, com um conjunto de exposições, nas quais mostra quadros de dimensões ainda mais reduzidas, em que, mal-grado as aparências iludirem – estamos perante figuras antropomórficas isoladas, mascaradas ou privadas de rosto –, se manifesta com redobrada vitalidade uma questão central que antes era latente: a de uma animalidade ou monstruosidade aliadas a um ambiente de inquietante estranheza.

NUNO FARIA