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-   Bárbara Assis Pacheco, S/título, 2001, nº inv.: 02DP1827
Bárbara Assis Pacheco, S/título, 2001, nº inv.: 02DP1827

CAMJAP
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Bárbara Assis Pacheco, S/título, 2001, nº inv.: 02DP1827 Click nas imagens para ampliar
 
Selecção de Artistas
 
 
 
   
   
 
   

Bárbara ASSIS PACHECO (1973)

Nasceu em Lisboa, em 1973. Aí vive e trabalha. Em 1997 licenciou-se em Arquitectura na FAUTL e, em 2001, concluiu um curso de Desenho e o Curso Avançado de Artes Plásticas no Ar.Co, Lisboa. Frequenta actualmente o 3.º ano de Filosofia da Universidade Nova de Lisboa. Expõe em colectivas desde 1997. A sua individual, na Sala do Veado (Lisboa, 2002), teve uma importância decisiva na compreensão e visibilidade do seu trabalho.

Um dos principais universos temáticos que o preenchem é o mundo animal, numa procura situada entre a atracção e a repulsa, o disforme e o lúdico, que a conduz a Museus de História Natural, aos jardins zoológicos ou ao circo, aos compêndios e laboratórios de anatomia, aos matadouros, às gavetas de coleccionadores e à documentação de experiências genéticas.

Desse fascínio e de uma catarse da violência, da morte e do estropiamento perverso (ou apenas natural à sobrevivência alimentar, ao estudo científico, ao coleccionismo, ao entretenimento) resultam imagens de porcos ensanduichados para abate, nacos de carne pendurada, coelhos, vacas, pássaros, peixes, cães, ratos, elefantes, sapos, focas, dos quais se dão a ver sobretudo os ossos e cartilagens sob a pele descarnada, as costelas, os pescoços, as patas e rabos, a suspensão, o esquartejamento, a etiquetagem, as posições inertes do abate, do transporte, do encarceramento, a doença, a putrefacção, as manchas, as diferentes secções, a pele enrugada, esvaziada ou inexistente, as barrigas no que figuram de mais afectivo e vulnerável, as cabeçorras, os girinos.

A gestação, dos animais ou das pessoas, aparece como factor de particular atracção nesta leitura privada do mundo em que quase tudo parece um negativo de fotografia, ou espécime guardado em álcool, e em que a transparência se impõe como tema e como técnica, dando a ver os corpos densos por dentro, tanto quanto por fora. A questão da maternidade (humana ou animal) aparece, aliás perturbadoramente ligada à morte, num círculo que lhes relaciona a estranheza da maleabilidade óssea, do informe potencial e das cavidades em que se arrumam.

Num dos desenhos adquiridos pelo CAMJAP, três ratos suspensos de cabeça para baixo são atravessados por pares de olhos vazios. Num outro desenho, com carácter serial, desenha, a azul, crânios de ratos, arrumados em caixinhas, como os terá visto algures no Museu de História Natural de Lisboa. É o mesmo princípio coleccionista e repetitivo que organiza os trabalhos apresentados ao “Prémio CELPA/Vieira da Silva” 2003: insectos de vários tipos, alinhados e embalsamados como numa vitrine, mas também séries de botões, de escovas de dentes, de frasquinhos, de instrumentos como tesouras, pinças, escalpes e bisturis...

No que se refere ao corpo humano, ocupou-se, curiosamente, das barrigas de mães e da dissecção do órgão sexual masculino. Nesse território, em que explícita ou inconscientemente se persegue a reprodução das espécies, não será difícil encontrar um sentido para as “piscinas” que tem pintado, recintos fechados, de água turva ou semitransparente, promessa de fertilidade ou hipótese de afundamento e submersão.

Paralelamente, Bárbara realiza outros tipos de trabalhos como objectos e fotografia. É o caso de uma série de moedas que são cunhadas com palavras como “beauty” e “horror, ou “pretty” e “repulse”; ou o caso de um baralho de cartas com colagens de imagens de animais; ou fotografias em que associa jazigos e desejos... ou as fotografias de espaços vazios a que chamou Cenas de um Crime. Provavelmente, esse crime de sermos trazidos à nascença e à morte sem condições para as perceber.

LEONOR NAZARÉ