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-   Pedro Casqueiro, Galeria, 1997, nºinv.:97P527
Pedro Casqueiro, Galeria, 1997, nºinv.:97P527

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Selecção de Artistas
 
 
 
   
   
 
   

Pedro CASQUEIRO (1959)

Nasceu em Lisboa em 1959 e frequentou a ESBAL na primeira metade da década de 80. Participou num movimento geracional que se caracterizou pela afirmação precoce de alguns artistas (a sua primeira individual, por exemplo, acontece em 1982) e que agitou, na altura, a cena artística nacional. Integrou um grupo informal (que nunca chegou a estabilizar as suas colaborações ou a fixar uma designação) com alguns colegas do seu ano de estudos (Ana Vidigal foi aquela que, para além dele, mais se destacou) e participou em exposições (Talentos Emergentes, 1981 ou Onze Anos Depois, 1982), que definiram uma especificidade poética no contexto dos restantes grupos de artistas então revelados: predominância de valores plásticos (cor, gesto, matéria) como imagem de uma irredutibilidade subjectiva capaz de afastar toda a possibilidade de interpretação ideológica ou erudita.

A pintura de Casqueiro, nesses anos, era a que melhor interpretava esta atitude: a forma submetia-se à cor, a estrutura nascia do acto da construção e o tema sujeitava-se à energia global e interior dos elementos pictóricos.

Poucas pinturas nos transmitem uma visão tão urbana como a de Pedro Casqueiro, na conjuntura portuguesa dos anos 80: não se coloca do lado dos mitos arcaicos nem da erudição literária caracterizadores da primeira vaga desta década, não cria (nesta fase) imagens de segundo grau; trabalha no registo imediato de sensações, cria imagens pictóricas que transportam sem mediação energias físicas, sensações, sentimentos e emoções.

A sua pintura assentava numa lógica de velocidades e surpresas, de desequilíbrios e tensões, cultivava a indiferenciação dos materiais e das cores, das formas e dos sentidos, da imagem e da palavra (inscrita) e, também, da abstracção e da figuração. Nos períodos seguintes, e até hoje, uma das especificidades do trabalho de Casqueiro consiste na possibilidade de uma inesperada alteração de pressupostos discursivos, retomas ou cortes súbitos entre cada trabalho ou grupo de trabalhos.

A pintura de Pedro Casqueiro parte de uma situação que, segundo a classificação de Kuspit, é  “orgânica” (kandinskiana), mas com momentos em que revela afinidades com a solução “geométrica” (malevitchiana/mondrianesca). De facto, o deslaçamento visual das suas obras é aparente. Existe uma malha estruturante da imagem, mesmo nestas pinturas mais antigas e mais expressionistas. A construção geométrica dos espaços revela-se (no período que se prolonga até 1987) de uma forma tão clara como nas pinturas de 1997. Mas essa estrutura é posta em causa a todo o momento.

Na etapa seguinte (1987-1993), Casqueiro opta por um apaziguamento de meios e efeitos, nomeadamente de texturas, cores e formas, que se tornam lisas e arredondadas. Mas, de imediato, consciente do risco da pura decoratividade a que a solução o poderia conduzir, o pintor começou a praticar um jogo de ocultações parciais das novas superfícies. As imagens obtidas exprimem uma certa elegância maneirista ou rocaille que, no período de 1993 a 1996, se vai estruturando de forma cada vez mais regular até evoluir para séries já em relação directa com a pintura “arquitectónica” e de certa contenção hierática, que praticará após 1997.

Nesse ano, a sua pintura cria vastos e luminosos interiores. As imagens sugerem um ecrã que regista um espaço cenográfico perspectivado, e são elementos de um discurso de segundo grau: de facto, parecemos vogar pelo interior de um museu de traça modernista, em cujas paredes se exibem telas abstractas; e percebemos a possibilidade de entrar em interactividade operativa e permanente com imagens que parecem contíguas entre si como num jogo vídeo.

O trabalho do artista, no período entre 1998 e a actualidade, vai continuar a expor-se como lugar de contaminação. Dentro da clarificação compositiva dominante, o final dos anos 90 (1998-1999) abre dois novos caminhos que, a par de permanentes retomas temáticas e formais, têm dominado a pesquisa de Casqueiro.

Trata-se do regresso à palavra inscrita na tela e da vertente figurativa. É a partir do núcleo de pinturas, onde a forma se faz palavra lida e dita, estabelecendo, cada letra e a sua articulação, o próprio andaime compositivo da imagem e tornando-se a sua leitura de novo significativa (Try your Luck, por exemplo), que Casqueiro prossegue a investigação de sinais convencionais de representação visual. Através deles explora os lugares-comuns da representação na BD (fumos, explosões, sinais de movimento, sinais de choque, etc.) e reintroduz a figuração em falsas e provocatórias narrativas.

JOÃO PINHARANDA