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Manuel FILIPE (1908-2002)
Nasceu em 1908, em Condeixa. Morreu em 2002, em Lisboa. Pertenceu à geração neo-realista, que pretendia instaurar um Novo Humanismo, quer nas artes, quer na literatura, e cujas influências foram o Expressionismo, o Realismo Socialista, os artistas mexicanos Orozco, Rivera e Siqueiros e o brasileiro Portinari. O núcleo mais consistente da sua obra denota estas mesmas influências, encontrando na temática social e na luta contra a opressão totalitária a inspiração para criar. A Fase Negra (1943-1945) resulta, assim, de uma necessidade sentida pelo pintor de denunciar situações de injustiça verificadas nessa época na sociedade portuguesa. As temáticas escolhidas referem-se ao mundo do trabalho e às vivências difíceis dos mais desfavorecidos.
Para além do registo intencionalmente dramático da miséria humana, envereda também pela sátira, como se pode notar na representação caricatural da burguesia opulenta. Escolhe o emprego exclusivo da mina negra do carvão sobre o papel branco, o que favorece e determina o dramatismo e a violência expressiva destas obras, relacionando-se, desta forma, com a corrente político-combativa do Expressionismo alemão. Exemplo desta fase é o quadro Leitura Clandestina/Audição Clandestina, e o tríptico Guerra, ambos de 1945. Segundo Manuel Filipe, este conjunto pretende denunciar uma sociedade que, mal-grado as grandes conquistas da técnica, produz as gritantes injustiças com todas as suas consequências – os grupos a que chama subgente, a alienação, os cogumelos humanos – e também anunciar os primeiros sinais de inconformismo e de tomada de consciência dos homens avisados.
As personagens apresentam-se com os olhos desmesuradamente abertos e pés e mãos desconformes, que, de acordo com o artista, podem exprimir a força ou a brutalidade física daqueles que fazem dos pés e das mãos os seus principais agentes de sobrevivência. Tenta não executar uma cópia do real aparente mas uma transfiguração que possa servir a transmissão dos seus ideais e sentimentos, identificando-se e solidarizando-se com as vítimas que representa.
Manuel Filipe demonstra uma extrema coragem de se expor em pleno fascismo. Mais do que uma análise, é um grito de revolta que preside à criação das suas obras, e, por este motivo, foram classificadas pelo regime de então como subversivas, dando origem a episódios como a retirada de alguns dos seus trabalhos da II Exposição de Artes Plásticas da SNBA em 1947, o acto de vandalismo de deitarem ao chão e partirem o vidro dos seus quadros na sua primeira exposição individual no Porto, ou o encerramento pelo Governador Civil da exposição em Braga. A PIDE chega a ameaçá-lo de que, se voltasse a expor, seria demitido do cargo de professor de Desenho, actividade que exerceu na Guarda, Castelo Branco, Leiria e Cascais.
Esta repressão vai levá-lo a abandonar a actividade artística até 1961, data em que inicia uma segunda etapa, interpretada como fase média, que irá até 1970. Os temas tratados estão na mesma linha de inspiração social e espírito de denúncia de uma sociedade agonizada. No entanto, o ponto fulcral deste conjunto é a representação livre de paisagens de cidades alentejanas, nas quais as casas se estruturam em volumes abstractizantes. O recurso ao óleo substitui o recurso ao carvão, mantendo no entanto uma grande sobriedade no emprego da cor.
Na década de 70, envereda por uma outra linguagem, na qual utiliza uma grande variedade de materiais e objectos recuperados que justapõe à superfície dos quadros, criando composições que, subjacentes à linguagem abstracta, comentam situações da vida contemporânea. Exemplo desta última fase é o díptico Paredes de Abril, de 1981, no qual representa uma figura abstracta que se compõe de colagens de jornal pintado e areia, em que se destaca a imagem de uma mão que faz o sinal de paz, e ainda o quadro Catarina, também de 1981, provável alusão à famosa Catarina Eufémia, no qual inclui colagens com a imagem suprema da revolta – Che Guevara – e celebra os heróis de uma vitória contra um regime que tanto criticava.
CARLA MENDES
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