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José BARRIAS (1944)
Numa nota introdutória à organização do seu trabalho, Barrias explica que foi através da obra Obstbuch/ O Livro dos Frutos (1972-1973) que descobriu as características que sucessivamente se viriam a revelar estruturais no seu trabalho: a cadência cíclica, a consciência da obra como legado, a adição de fragmentos dentro de um sistema polissémico, interactivo e in progress... Tudo devido à convicção de que os homens contam histórias desde o princípio da humanidade, na tentativa de dar forma à desordem da experiência (Umberto Eco, lembrado por Barrias).
A relação com a dimensão narrativa e temporal é o eixo em torno do qual se estrutura a sua obra: o projecto como memória e a memória como narração. A urgência do presente é sempre acompanhada pela sempre presente insuficiência do mesmo. Os ciclos, mesmo se autónomos, remetem-nos continuamente para um movimento oscilatório, um vaivém repleto de reciprocidades internas e de correlações, o que faz com que cada exposição de Barrias seja sempre uma variação sobre o tema da memória, uma repetição diferente.
O seu trabalho é fortemente marcado pela interpelação existencial. Emblemática, nesse sentido, é a obra Nel Mondo (1995), onde um escadote (a proximidade) e um óculo (a distância) interagem com uma grande semi-esfera de parede totalmente forrada com imagens do seu próprio universo.
Tempo dá nome a um ciclo e a um livro, dos quais fez parte a exposição Meridiano, realizada em 1990, na Galeria EMI-Valentim de Carvalho. Nela expôs o esqueleto de uma barca e várias pinturas com um ritmo binário ou ternário em que a figura do turbilhão, com vórtices e espirais, era evocativa do tempo, da água e do vento. O livro, com um conto de Tabucchi e sob a égide de Leonardo da Vinci e de Rilke, é objecto de cuidadosas encenações. Há algo de barroco nesse gosto de Barrias pelo movimento em espiral, pelo enigma e pela surpresa da forma.
A instalação Barragem (vídeo e fotografia, na colecção do CAMJAP), exposta pela primeira vez em Paris em 1980, é outro exemplo claro da relação do artista com o mundo dos vestígios (nome de um outro ciclo). Barragem é fundada na revelação da beleza reemergente de um lugar submerso, as ruínas de Vilarinho das Furnas. A imobilidade da pedra contrasta com a mobilidade da brisa, evocada através das cortinas de seda interpostas nas passagens. Como o próprio artista declara numa entrevista de 1992, o acto exorcizante do limite é a confirmação da estreita relação que mantemos com ele.
Uma outra forma de interpretar a ideia do tempo como passagem (ver Pas Sages, 1980), pode ser identificada na centralidade que o conceito de herança assume no trabalho do artista. Exemplo disso é a obra A Imagem da Sombra (1994), uma sequência que parte de um auto-retrato ao espelho de Miguel Barrias, o pai, também pintor e figura transmissora de um modo de ser e de fazer (ser artista, fazer arte).
O ciclo Vestígios (ciclo aberto, desde 1987) é marcado por um uso heterogéneo de meios expressivos: objectos encontrados e reutilizados, desenhos, citações de poetas admirados, pinturas, obras de carácter híbrido. Em Piccolo Mondo (1995, ciclo Nostalgia de Passagem) é a figura da maternidade que é retratada através de uma referência declarada à maternidade pintada por Piero della Francesca, La Sacra Conversazione. Uma confirmação da importância assumida pelo conceito de herança na obra de José Barrias.
História profunda e histórias circunstanciais cruzam-se sem hierarquias na sua obra, como quando cita Leonardo ou Paolo Ucello, os poetas da sua eleição, ou quando escreve a Ode Marítima nas paredes transformadas em lousa do quarto de Fernando Pessoa (1995). Mas o tempo é também pausa e fragmentação, descontinuidade e ocasionalidade. Quase Romance (1973-1986) é uma sequência (desenhos, pinturas, aguarelas) feita dessa coexistência, que tem como ponto de partida, como matriz memorial e formal, um postal manipulado em espelho: o bilhete-postal como veículo de imagens e palavras, quase um romance...
Em Noitiário (1983-1984), é da passagem à matéria da penumbra que se trata... Do dia para a noite, do sono ao sonho, do claro ao escuro. Em Nostos, /O Regresso, o artista afronta a questão do retorno, de referência nietzchiana, da pátria, como lugar reconduzível a outro lugar, diferido, alheio e familiar. Talvez a morte também possa ser pensada assim: como um lugar diferido da vida. A ambas, morte e vida, se refere a obra Os Embaixadores (1978-1987), inspirada na famosa pintura de Hans Holbein e na caveira que nela revela a ocultação da vida. E, como diz Barrias, a sua relação privilegiada é aquela que mantém com o fluir limitado da vida.
LEONOR NAZARÉ
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