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António CARNEIRO (1872-1930)
António Carneiro nasceu em 1872, e é nessa condição de fim de século, de crise assumida e de dificuldade de passagem, que é necessário enquadrar a sua produção artística.
A arte, em todas as suas modalidades de expressão, sempre a assumiu e desenvolveu enquanto modo de autoconhecimento. “A autêntica, a profunda realidade unicamente dentro de nós existe”, escreve o artista revelando uma das verdades absolutas da sua estética de vocação metafísica. Outros valores fazem o fundo ideológico do movimento da Renascença Portuguesa a que pertenceu: a saudade, a raça, a energia intelectual. Foram estes os valores que António Carneiro protagonizou, ao lado de uma geração em crise, aristocrática em cultura e comportamento, aprisionada no que de maior e melhor ainda transportava o oitocentismo e marginal por isso mesmo, incapaz de ultrapassar as dificuldades de passagem de um século para outro. É essa “realidade profunda” que o artista tenta encontrar no exercício da pintura, e também da poesia, qualquer que seja o género tratado. O retrato, a paisagem ou até mesmo a ilustração são quase sempre processos de identificação do autor com o tema escolhido.
É neste contexto que o retrato pode oferecer a cumplicidade mais imediata, e que a escolha do modelo pode tornar-se decisiva. E não é por acaso que são os seus amigos e companheiros geracionais da revista A Águia (de que foi director artístico), que repetidamente foram os modelos escolhidos, cuidadosamente colocados na exacta expressão de sentimentos comuns. Teixeira de Pascoaes, Correia de Oliveira, Raul Brandão, Antero de Quental são alguns personagens de uma vasta galeria, toda ela encenada em valores plásticos e ideológicos de ausência, crispação ou vacuidade.
A sua aproximação à natureza faz-se num processo idêntico, determinado em absoluto pela escolha de um lugar, de uma perspectiva ou de uma situação atmosférica precisa. O cuidado desta escolha pressupõe um modelo paisagístico coincidente com o seu “estado de alma”. Sabemos que estas paisagens não são ficcionadas, mas o seu reconhecimento plástico deriva desse encontro emocional. De inspiração simbolista, as imponderáveis praias do Norte, quase à beira da dissolução, serão talvez o resultado do esforço científico de encontrar, na madrugada ou no entardecer, a cor e o tom certos para os seus pensamentos. Do mesmo modo, as paisagens de Melgaço (colecção CAMJAP), mais expressionistas na densidade e expressão cromática, reflectem uma outra turbulência interior.
Fiel às pessoas e aos lugares como a si mesmo, António Carneiro faz com esse mimetismo o decalque psicológico dos seus modelos interiores.
A gestão plástica da sua própria imagem torna-se naturalmente exemplar, e chegam às dezenas os auto-retratos que o artista realizou – desenhos, óleos ou sanguíneas –, em sucessivos planos de representação realista ou metafórica. Em todos eles, António Carneiro valoriza a dignidade expressiva do seu porte de cabeça, centrando as composições na intencionalidade do olhar, sentido privilegiado do conhecimento do mundo.
Nesse exercício de reconhecimento, que é o olhar sobre si próprio, não passam quaisquer sinais de tranquilidade. Trata-se de uma inquietação, um desassossego interior que o artista quer deixar transparecer neste olhar simultaneamente introspectivo e de intervenção.
Do conjunto de trabalhos em que o artista se expõe, segundo um enquadramento visual homogéneo e quase normativo, sobressaem duas situações particulares. Ecce Homo (1901), ainda de inspiração simbolista francesa e cronologicamente próximo do tríptico A Vida (1900), é um auto-retrato do pintor na figura de Cristo afrontado e acusador. Alguns anos mais tarde (1923), e dentro do mesmo espírito, faz-se representar semi-oculto num gabão com capuz, ausente do mundo real mas mensageiro de uma verdade à deriva. São duas situações em que a imagem ficcionada não resulta de qualquer teatro pessoal, mas antes de uma vidência ou revelação divina.
Os auto-retratos de António Carneiro são o paradigma psicológico de uma situação geracional específica. Presa entre a tradição e a modernidade, entre um excesso de pensamento e uma incapacidade de agir, a sua geração enredou-se numa malha introspectiva, ensimesmada pelo valor ético da sua intimidade. Sem raízes evidentes nem consequências directas, António Carneiro construiu o espaço fechado das primeiras experiências modernas em Portugal. Solilóquios é o título exemplar do seu trabalho de poesia.
HELENA DE FREITAS
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