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Roger BISSIÈRE (1886-1964)
Nasceu em Villeréal, França, em 1886, e morreu em Boissiérettes, em França também, em 1964.
“Não creio que a pintura se aprenda”, escreveu Roger Bissière em 1961, pintor que ensinou durante vinte anos (desde 1923) na Académie Ranson de Paris. Personalidade inquieta, espírito atento, jornalista e periodista regular, Bissière nunca deixou de se interrogar acerca dos propósitos da sua arte e da arte do seu tempo.
Após quatro anos na École des Beaux-Arts de Bordéus (1905-1909) e uma breve passagem pela École des Beaux-Arts de Paris (1910-1911), Bissière coloca-se à margem da instrução académica. Desapontado com o ensino e com os salões oficiais, onde chegou a expor em 1910 e 1911, aceita um lugar como jornalista no L’Opinion.
Entre 1916 e 1919, colabora regularmente com vários jornais e periódicos de arte e escreve textos para catálogos.
Se até 1920 se insurge contra as pretensões dos pintores-teóricos, condenando mesmo os cubistas pelo excesso de manifestos que editam, a partir desta data muda radicalmente de opinião e defende a pintura que se apoia em sólidas doutrinas. Neste mesmo ano abandona o jornalismo e volta a pintar e a expor.
Bissière é agora um elemento do grupo cubista que se reúne na Galerie de l’Effort Moderne. O novo Cubismo do pós-guerra, que se assume como de regresso à ordem e perpetuador da tradição clássica, apesar de modernista, parece ser favorável ao pintor, que sempre se designou seguidor da tradição francesa (Ingres, Seurat, Corot). A figura humana, representada no camponês, nas personagens de comédia e nos saltimbancos, ou a própria Mousse, esposa do artista, servem de tema para numerosos ensaios plásticos (Deux jeunes femmes dans un intérieur, 1922; Trois filles à marier, 1922-1923).
Em 1923, participa no Salon des Independents e integra a primeira exposição do 4.e Groupe, organizada pela Galerie Druet, com a qual assina contrato até 1937. A crítica assinala uma nova fase na obra de Bissière, que revela um colorido mais vivo e sensual, uma espécie de exaltação lírica, de memória impressionista. Era já o ponto de partida para uma série de novos trabalhos, em que o artista dá expressão ao seu lado mais sensorial e emocional, de comunhão com a terra e com a natureza, numa premonição do que viria a ser a sua pintura da maturidade.
Bissière pinta sobretudo paisagens (1927-1932), numa tentativa de destruição da representatividade e em benefício de um tratamento matérico da atmosfera; a figura é visível, embora imersa num jogo de texturas onde a luz não é alheia à definição da trama (Paysage, 1925; Deux nus, 1926-1927). Paralelamente, prossegue numa pesquisa de inspiração cubista, também ela um sinal precursor dos próximos trabalhos (Figure debout e Grande figure, 1937).
Ao longo deste período perpassa um sentimento trágico, de catástrofe iminente. A crise económica e o espectro da Segunda Grande Guerra lançam Bissière na recuperação das obras de artistas ditos malditos, violadores da ordem clássica (Grünewald, H. Bosch; Brueghel, o Velho, e El Greco), que o inspiram na sua série de Crucifixões e Descidas da Cruz.
O anúncio da guerra, em 1939, fá-lo refugiar-se com a família em Boissiérettes. O afastamento de Paris e de toda a influência da vida artística permitem-lhe repensar a sua obra e, durante quatro anos, abandona a pintura. A sua ligação ao mundo rural, a solidão e o conflito mundial acentuam o seu pendor introspectivo. À falta de material de pintura, Bissière recorre aos tecidos para produzir as obras que lhe valerão uma má recepção por parte do público e a admiração expressa de Dubuffet (Galerie René Drouin, Paris 1947). As tapeçarias feitas de restos de tecido, cosidas e bordadas por Mousse, são a afirmação inequívoca de uma nova relação do homem com a pintura e com a arte (Soleil, 1946; Chartres, 1947).
A pintura do pós-guerra evoca um novo sentido do real e da religião; relata o quotidiano simples e alude a uma relação mágica com o divino. Diários e ex-votos retratam o homem na sua dimensão natural, em que o trabalho de pintar se faz a par do trabalho da quinta (La Vache, 1944; série Boissièrette, 1945; François d’Assise, 1946).
A iminência da cegueira (1948) dita uma brusca paragem na pintura e remete o pintor para um estado de desespero de que sairá, em 1950, após uma operação a um glaucoma. As telas dos anos 50 reflectem esse renovado maravilhar com a cor, a luz e a natureza. As paisagens de tonalidades vivas vibram imersas em signos sugestivos de marcações reais ou imaginárias (Composition jaune et verte, 1951; Rouge et vert, 1952; Croix du Sud, 1952).
Os anos seguintes são pautados por uma série de exposições importantes: Galerie Jeanne-Bucher, Paris, 1952, 1956, 1958, 1962 e 1964; Documenta de Kassel, 1955; retrospectivas em Hannover, Recklinghausen e Lubeck, 1957, e no Musée National d’Art Moderne de Paris, 1959. Em 1964, ano da sua morte, é convidado para a 32.ª Bienal de Veneza, onde lhe é atribuída uma menção honrosa pela importância artística e histórica da sua obra.
O Journal en images (1964) reflecte bem a sua ligação com a arte: vida e pintura fundem-se nos dias esboçados em imagens coloridas.
SANDRA SANTOS
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