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Rui CHAFES (1966)
Nasceu em Lisboa em 1966. A sua produção escultórica vem sendo gizada com base num projecto coeso, concebido e aprofundado desde as primeiras apresentações públicas dos seus trabalhos.
Na segunda metade da década de 80, uma série de três exposições individuais, realizadas em Lisboa (Galeria Leo, em 1986 e 1987, e no Espaço Poligrupo Renascença, em 1988), deu a conhecer obras de materiais diversos (madeiras, canas, plásticos), animadas de luz e cor, onde já se evidenciavam alguns dos pressupostos estruturantes da sua produção subsequente: a criação de objectos delimitados, o predomínio de formas organicistas, a sugestão de leveza e de desmaterialização das suas peças, beneficiada, neste caso, pela fragilidade das matérias utilizadas, e pela primazia conferida à questão da relação dos objectos com o espaço, em termos que recusam a lógica literal do monumento e chegam, frequentemente, a favorecer um efeito de instalação.
Nenhum destes vectores se alterou quando, a partir de 1989, os seus trabalhos passaram a utilizar exclusivamente o ferro pintado, porque as questões que vaza nos objectos se mantiveram incólumes. Assim, independentemente da grande diversidade formal das esculturas executadas na última década e da sua constante intersecção com outros meios de produção artística – particularmente a partir da publicação de livros em que o registo do trabalho escultórico interage com desenhos, fotografias e textos ora assinados pelo escultor ora recolhidos noutros autores (Würzburg Bolton Landing, A&A, 1995, e Durante o Fim, A&A, 2000) –, a unidade do projecto de Rui Chafes persiste, ancorada que foi numa dupla plataforma onde uma espécie de dúvida metódica sobre a natureza da criação artística se combina com a possibilidade de retorno à escultura mais disciplinar.
É o cruzamento destas interpelações que gere a essência paradoxal do conjunto da sua produção, exigindo a coabitação tensional de pré-conceitos aparentemente irreconciliáveis: arte/banal, territorial/nómada, natural/artificial, belo/sublime, afecto/agressão, ordem/desassossego, objecto/desmaterialização, peso/leveza. As peças que constrói combinam, por isso, o rigor formal e as cicatrizes da execução técnica, o pleno da estrutura e o vazio do volume, a verticalidade referenciada na arte medieval e a erradicação pós-minimal da lógica monumental, a ordem simétrica biomórfica e a inquietação da violência – mimetizada, ou evocada, em máquinas de guerra, objectos de tortura, invólucros corporais agressivos e sinais de morte –, o peso da matéria férrea e a sua neutralização por via da coloração e da suspensão dos objectos, como precisamente nos demonstra Durante o Sono, com a sua grande esfera suspensa por fios serpenteantes.
São ainda esculturas que, apesar da sua autonomia “nomádica”, implicam os lugares de colocação, lugares que são interpelados ou mesmo transfigurados pela sua presença. E, assinale-se, esta estratégia de ocupação, que não é sinónimo de pertença, libertou-se recentemente do espaço da galeria de arte e do museu para irromper também na paisagem: no parque no Palácio da Pena (Durante o Fim, 2000), na fachada de uma igreja em Espanha, no Jardim Botânico do Porto ou nas falésias e nas praias da costa atlântica de Sintra (Um Sopro, 2003).
Clarifique-se, ainda, que o seu trabalho não se inscreve na lógica de experimentação cara às vanguardas artísticas. Pelo contrário, o escultor pretende reabilitar o sentido de descoberta e de revelação amplamente referenciado no universo do Romantismo alemão e, especialmente, no pensamento de Novalis, de quem seria, aliás, tradutor (Fragmentos de Novalis, A&A, 1992).
A Alemanha fora já o seu destino após a conclusão do curso de Escultura na ESBAL, em 1989. Aí completou os estudos, frequentando a classe de Gerard Merz, na Kunstakademie de Dusseldorf, até 1992. Esta estada favoreceu também o aprofundamento do património teórico que sustenta as interrogações do artista. Esse suporte reflexivo, imbuído do ideário romântico, oferece-se-lhe como uma “rua de sentido único”, onde cada peça germina como fragmento apto a recolocar uma equação mais vasta que, com Novalis, retém: “Todas as forças da Natureza são Uma força, apenas.” A escultura de Rui Chafes, como todas as formas contraditórias e em transformação que encontra no mundo visível, comunga dessa força e contribui para a revelar.
JOANA CUNHA LEAL
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