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-   René Bertholo, Nuvem com Superfície Variável - III, 1971, nº inv.: 01E1215
René Bertholo, Nuvem com Superfície Variável - III, 1971, nº inv.: 01E1215

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Selecção de Artistas
 
 
 
   
   
 
   

René BERTHOLO (1935)

Nasceu em 1935, em Alhandra. Frequentou a ESBAL entre 1951 e 1957. A atitude experimentalista cria nele, desde cedo, uma forte repulsa pelo ensino académico. Entre 1953 e 1955, co-dirige a revista Ver e, de 1955 a 1957, a Galeria Pórtico, com Lourdes Castro, Escada, Costa Pinheiro e Teresa de Sousa.

Em 1957, parte para Munique, com Lourdes Castro, Costa Pinheiro e Gonçalo Duarte, e instala-se em Paris em 58, ano em que o grupo começa a publicar a revista KWY, à qual se associam, em 1960, Jan Voss, Christo e João Vieira. Em 1959, integra a selecção portuguesa da Bienal de São Paulo. Em Paris, é no contexto da Nouvelle Figuration, defendida por Pierre Restany, a versão francesa da Arte Pop, que desenvolve “uma escrita das coisas” pictórica individualizada, furtando-se àquela filiação. Na Europa, o contexto define-se também pela presença do movimento Cobra e pelo Surrealismo belga.

Em França, é sensível à figuração primitivista de Dubuffet ou às assemblages de Arman e assiste à dinâmica vanguardista dos affichistes, cinéticos, informais, grupo Zero... Mas o artista costuma explicar que Klee e Kandinsky foram as suas primeiras influências. Teria sido impressionado também por De Kooning, Pollock, Tobey, Rothko, Twowbly, Fahlström... Em 1964, organiza e participa na exposição Mythologies quotidiennes. Até final dos anos 60, está presente em várias exposições em Paris, Itália e Norte da Europa. A sua circulação internacional é considerável até finais dos anos 70, altura em que resolve regressar a Portugal para viver no Algarve.

Os primeiros desenhos e monotipias dos anos 60 recorrem a acumulações e espalhamentos que viriam a ser recorrentes. Neles, conjuga a expressão figurativa, processos do automatismo psíquico de raiz surrealista, a abstracção e uma vaga atitude pop. O quadro dentro do quadro, a lógica da BD, a composição padronizada, sem um centro, os motivos da vida quotidiana sob transformação poética e onírica, a seriação com pequenas variações, o recurso a vários suportes (serigrafia e litografia em edições de artista, colagem, caligrafia e tipografia, óleo e acrílico, fotografia, graffiti, acumulações) são as principais características desse trabalho.

Em 1966, constrói os primeiros Modelos Reduzidos, peças com motores rudimentares deixados visíveis no objecto, cuja condição questionam. A sua dimensão lúdica interpela o conceito de paisagem, com a colocação em movimento de um elemento natural (árvore, mar, nuvens...) numa espécie de animação e objectualização do desenho. Na sequência dos estudos de electrónica aplicada à arte, feitos em Berlim entre 1972 e 1973, irá construir a sua “máquina de sons”, apresentada só a partir de 1995 com os Deskoncertos de Mozika. Trata-se de uma gigantesca e sempre crescente acumulação de módulos que gravam e transformam sons da vida quotidiana.

A partir de 1974, a pintura substitui a acumulação pela compartimentação em episódios, e surgem os “quartos” cheios de coisas. Bertholo refere-se ao prazer de misturar tudo num espaço imaginário, mas dando agora um chão a todos os habituais elementos esvoaçantes: personagens de ficções tradicionais, formas embrionárias entre o vegetal e o animal, puzzles e inventários de objectos diversos do quotidiano banal, num delírio imagético e entrópico, em que evita uma visão unitária, a ideia de uma sintaxe organizada.

Entre 1972 e 1973, faz alguns trabalhos de arte pública, como a pintura da rua Doussoubs em Paris, as construções escultóricas em mosaico e cerâmica em alguns edifícios escolares e as esculturas em betão armado colorido no Hospital do Barreiro.

A pintura das décadas seguintes continua a caracterizar-se por uma utilização da cor secundária em relação ao desenho e ao grafismo, mas que investe de tonalidades kitsch muito próprias; por uma espécie de notação íntima e intuitiva, fechada ao objecto ready-made e procurando sempre a reconstituição dos objectos de memória em imagens subjectivas que Bertholo espera que “comovam e façam sonhar”; por um desinteresse por toda a crítica político-social. A partir de 1994, o processo das quadricromias (pintura com o uso exclusivo das quatro cores usadas em tipografia) torna mais vivas as cores obtidas por camadas e transparência.

O computador facilita entretanto a utilização dos antigos processos de corte, colagem e transformação de imagens anteriores nas novas composições. Bertholo utiliza quase sempre desenhos preexistentes, mas sempre seus e imaginados, onde algumas referências autobiográficas não deixam de ser reconhecíveis. E, “se há narração, é involuntária e feita pelo espectador”, diz Bertholo.

LEONOR NAZARÉ