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Daniel BLAUFUKS (1963)
Oriundo de uma família de ascendência judaica, Daniel Blaufuks nasceu em Portugal em 1963. Depois de ter estado na Alemanha durante seis anos, regressou a Lisboa onde frequentou, a partir de 1987, o curso de fotografia do Centro de Arte e Comunicação Visual (Ar.Co). Já na década de 90, prosseguiu a sua formação no Royal College of Art, em Londres, e no Watermill Center de Nova Iorque. Com um percurso inicial marcado por colaborações, em regime de freelance, em diversas publicações portuguesas (de que se destacam os jornais Independente, Blitz e a revista Marie Claire), distancia-se dos parâmetros então veiculados pelo fotojornalismo, para radicar o seu discurso na intencionalidade da fotografia, progressivamente utilizada como evocativo campo narrativo.
Começa a expor regularmente no início da década de 90 e faz a sua primeira individual na Galeria Ether, depois de receber o “European Kodak Award” (Arles, 1989). Com as séries fotográficas My Tangier (1991), Cinema Paraíso (1991), London Diaries (1994), Uma Viagem a São Petersburgo (1998), Andorra (2000) ou Lisboa, Pessoa, Exílio, Saramago (2001), afirmam-se, progressivamente as características que fundamentam todo o seu universo plástico: a resistência oferecida à tentação de individualizar o assunto da fotografia, optando por sugerir um terreno interpretativo comum que a desvincula de qualquer especificidade (sendo na sua maioria, fotografias de paisagens urbanas, elas unificam-se pela sua natureza e não pelas particularidades ilustrativas que revelam); a constituição de um discurso pleno de referências literárias e cinematográficas, entretecidas com a vivência pessoal do autor, assumindo-se este como fotógrafo-andarilho, um road-fotographer que se detém na surpresa dos encontros (com lugares, objectos, pessoas, situações); a transposição do sentido do imediato inerente ao registo fotográfico para a inquietante revelação de um tempo que se suspende entre a identificação do que se vê e o carácter subjectivo do olhar que sobre o objecto repousa; a vontade de, a nível expositivo, ampliar o leque de interpretações que a imagem oferece optando por montagens de valor cenográfico evidente ou pelo privilegiar do livro como suporte/corpo de uma (possível) narrativa gerada na relação intra-remissiva entre texto e imagem.
Entre o real e o ficcionado, a citação e a evocação, o trabalho de Daniel Blaufuks vai progressivamente disseminar-se na experimentação da fotografia como extenso campo de possibilidades (perceptivas e operativas). Se, inicialmente, explora as densidades sugeridas pelo uso do preto e branco, com enigmáticos enquadramentos em que a luz define diferenciados campos de visão, progressivamente assume a cor como presença dominante em imagens de forte valor pictórico. Na série Tasso, realizada em 1996 e de que a colecção do CAMJAP detém três fotografias, o olhar sobre o objecto dilui-se em jogos de luz e sombra, transparência e opacidade, que se uniformizam sob a inquietante velatura de cor.
A estas tensões surgidas entre o objecto e a sua parcial ocultação, acrescentam-se outras em trabalhos como Collected Short Stories, de 2003. Realizado em resultado da itinerância por oito países distintos, este conjunto de pequenas histórias, registam encontros improváveis num quotidiano urbano. Num jogo de ficções, em parte gerado pela (na) leitura do espectador que se confronta com estes dípticos, Daniel Blaufuks estabelece diálogos entre pares de imagens dissonantes. Obedecendo a uma lógica de montagem e sequência cinematográfica (em muito estabelecida paralelamente aos seus trabalhos em película e vídeo), a sugestão ficcional é potenciada pela pose ou passagem (in)discreta de personagens, por enquadramentos estudados ou ocasionais, gerando similitudes ou distâncias, pelo valor nostálgico que retira cada uma destas imagens do lento discorrer de uma cronologia e antes as situa num tempo de interioridades do fotógrafo e do espectador.
ANA RUIVO
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