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António Júlio DUARTE (1965)
António Júlio Duarte (n. 1965, Lisboa) faz parte de uma geração de fotógrafos portugueses que, tendo já acesso a um ensino mais organizado e programático da prática fotográfica em Portugal (sobretudo através do Ar.Co – que frequentou), procurou completar essa aprendizagem num estabelecimento de ensino estrangeiro. Essa breve mas significativa estada teve lugar no Royal College of Art, no início dos anos 90, mas a passagem por Inglaterra como complemento de formação foi comum a outros fotógrafos seus contemporâneos (como José Luís Neto, Augusto Alves da Silva e Paulo Catrica). Esse parêntesis no exterior reflecte uma tendência “geracional” para o estabelecimento efectivo de contactos no seio de um sistema internacional de produção e difusão artísticas, bem como a procura in loco da actualização de referências históricas e de práticas emergentes no universo da fotografia.
A obra de António Júlio Duarte é caracterizada pela insistência com que tem associado a fotografia aos mais diversos destinos das suas viagens, sobretudo ao Oriente (Macau, Tailândia, Singapura, Malásia, Paquistão, Sri Lanka, etc.), alternando essas deambulações mais “ex-cêntricas” com um itinerário europeu. Interessa-lhe “naturalizar” a diferença que encontra noutros países, noutras cidades, noutros modos de ocupar a rua. Nesse sentido, a fuga ao exótico e à espectacularização da imagem constituem os leitmotiven do seu trabalho, no qual se dá privilégio a uma visão fragmentária dos lugares, mais próxima de um registo aparentemente ordinário da paisagem urbana.
A série Berlim evidencia precisamente o quanto a rua constitui o eixo a partir do qual António Júlio Duarte organiza e edita a imagem do lugar. A rua é o espaço (público) por excelência de uma marca residual do humano, e essa é a principal substância das suas fotografias. Berlim, ou “a cidade aberta”, como ficaria emblematicamente conhecida desde a queda do muro em 1989, surge aqui condensada num local de passagem. A opção pela fórmula serial, tão estrutural no âmago remissivo do corpo de trabalhos de António Júlio Duarte, permite-lhe sugerir uma narrativa com breves lapsos de tempo através da sequência de doze imagens, todas elas com o mesmo enquadramento.
A Berlim que aqui se mostra é uma cidade noctívaga, vislumbrada em focos de luz artificial e habitada por transeuntes em rápida deslocação. Artificial também, numa posição frontal algo desafiadora, é a presença de uma figura masculina ao centro da imagem, como o elemento que permanece entre imagens, o mistério insolúvel de um conjunto de fotografias aparentemente banais. Na constância do espaço sobre a passagem do tempo, surge o retrato de uma cidade em mutação sem que o fotógrafo se desloque para qualquer outro ponto de vista da rua.
Ao contrário de outros roteiros de António Júlio Duarte, em que cada imagem estabelece uma etapa de um percurso, como em Oriente-Ocidente (1990-1995) e em Lótus (Macau) (1999-2001), mas evitando igualmente o cliché dos lugares por onde viaja, Berlim poderia ser considerada uma série atípica no conjunto da sua obra. Como aliás o foi o seu desconcertante Peepshow (1997-1999), pela forma como diversificou os suportes e usos da imagem fotográfica. Mas sendo um ligeiro desvio à “fotografia de rua”, pela qual a obra de António Júlio Duarte tem vindo a ser reconhecida, esta série elucida bem o quanto a “fotografia de cidade” tem conseguido estabelecer uma ponte mais consensual, mas igualmente activa, entre a fotografia, as artes plásticas e o cinema, no imenso campo das artes visuais contemporâneas, com a sua necessidade urgente de reinventar os lugares da pós-modernidade.
LÚCIA MARQUES
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