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José de ALMADA NEGREIROS (1893-1970)
Figura carismática para os que o conheceram de perto, mediático, popular até, talvez seja o nome que mais facilmente ecoa – mesmo entre um público menos especializado – quando se fala de arte portuguesa do século XX, um século que Almada Negreiros praticamente atravessou, tendo nascido em 1893 e falecido em 1970.
A popularidade de Almada Negreiros virá, em grande parte, da sabedoria com que soube aliar uma profunda compreensão dos valores dos tempos modernos (basta evocar a sua intervenção pioneira e apaixonada na promoção do Modernismo em Portugal com o movimento futurista, entre 1915 e 1917) a um apego – manifestado na sua maturidade artística e intelectual – aos valores estéticos e ideológicos da tradição.
Um equilíbrio difícil, que iria proporcionar-lhe, como a nenhum outro artista português do seu tempo, uma visibilidade também garantida pela extensa obra que criou: plástica, poética, literária e teórica, revelada na pintura e no desenho, no bailado, na poesia e na prosa, no ensaio, na reflexão crítica e teórica.
O artista forma-se à margem do ensino artístico tradicional (Almada não passa por nenhuma escola de belas-artes) e revela-se, desde 1912, com a presença no I Salão dos Humoristas, nas salas do Grémio Literário, em Lisboa. A sua actividade criativa passa sobretudo, nessa altura, pela ilustração e pela caricatura, que publica em jornais e em revistas de humor da época.
O interesse de Almada pelas artes gráficas estende-se à publicidade, ao cartaz, às capas de revistas, como a Contemporânea (1922), e à decoração de interiores. Os seus primeiros quadros são obras de carácter decorativo, que concebe para vários estabelecimentos comerciais de Lisboa, como o conjunto de quatro painéis figurativos que executa, em 1913, para a Alfaiataria Cunha, a que se seguirão, mais tarde, outros projectos para o café A Brasileira do Chiado (As Banhistas e Auto-Retrato num Grupo, ambos de 1925) e para o Bristol Club (um grande Nu, pintado em 1926), num importante conjunto de trabalhos que permitem ilustrar a primeira fase da obra pictórica (colecção do CAMJAP).
A dança é também uma das suas grandes paixões. A ela dedicará alguns projectos coreográficos, desde 1915 (por exemplo, o bailado O Nome da Rosa), chegando a integrar, em 1918, o elenco da Companhia de Bailado de Helena Castelo Melhor, como primeiro bailarino, mestre de coreografia e figurinista.
Simultaneamente, escreve. Novelas como Saltimbancos ou Mima Fataxa (1916), K4 Quadrado Azul (1917), Histoire du Portugal par Coeur (1919), esta última redigida durante a breve estada do artista em Paris, e A Invenção do Dia Claro (1921) constituem apenas algumas das suas obras literárias, a par das intervenções críticas e programáticas, cujo momento culminante é a leitura pública do Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX (Lisboa, Teatro República, 1917). Colaborador regular de jornais e revistas, ao longo da sua vida publicará ainda numerosos artigos de carácter crítico e cultural, em periódicos como o Diário de Lisboa, colocando-se na defesa permanente dos valores da Arte, da criação plástica e do papel social do artista na era moderna.
Entre 1927 e 1932, estabelece-se em Madrid, onde prossegue a sua actividade de decorador, ilustrador e ensaísta. De regresso a Portugal, empenha-se novamente em projectos de divulgação artística: profere conferências (como Arte e Artistas, em 1933, ou Elogio da Ingenuidade, em 1936), redige ensaios (Cuidado com a Pintura, de 1934), publica o seu primeiro romance (Nome de Guerra, 1938), cria cartazes, de selos ou de brochuras ilustradas oficiais.
A amizade com António Ferro, desde os tempos de Orpheu (1915), leva-o a colaborar com o recém-criado Secretariado de Propaganda Nacional (1935), organismo que irá realizar a primeira exposição retrospectiva da obra gráfica do artista, em 1941 (Almada – Trinta Anos de Desenho), e que lhe atribui, no ano seguinte, o “Prémio Columbano Bordalo Pinheiro”, por ocasião da VII Exposição de Arte Moderna.
Almada Negreiros é, por esta época, um artista de mérito reconhecido pelas instâncias oficiais. A sua colaboração em numerosos projectos de decoração de edifícios públicos do Estado Novo afirma-se, desde 1934, com a criação dos primeiros estudos para os vitrais da nova Igreja de Nossa Senhora de Fátima, concluída em 1938. Este projecto modernista iria revelar uma parceria fecunda com o arquitecto Pardal Monteiro, renovada em projectos diversos, dos quais se destacam os das duas gares marítimas de Lisboa, nos anos 40 (Gare Marítima de Alcântara, 1944, e Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, 1948).
Almada experimenta também outros suportes, como a tapeçaria (Bailarina, 1949...), o azulejo ou o mosaico (para o conjunto arquitectónico conhecido como Bloco das Águas-Livres, em 1956...), regressa ao vitral, com os desenhos para a Igreja do Santo Condestável, em Lisboa (1951), abraça enfim alguns projectos de design de interiores, como a decoração de uma das salas do Hotel Ritz, em Lisboa (1959).
Do ponto de vista plástico, a obra manter-se-ia sempre alicerçada na persistência do desenho como meio e fim da sua actividade criadora. Nunca a cor, a matéria pictórica, extravasa os limites impostos pela razão do traço, mesmo quando o artista abraça um maior experimentalismo informado pela intuição da gramática pós-cubista, com as linhas entrecruzando-se no plano, com os contornos dos corpos resolvidos, sinteticamente, num desenho orgânico próximo da definição geométrica (círculos, arcos de círculo, ovais...).
E as formas da sua predilecção são sobretudo as pessoas – os saltimbancos (Acrobatas, 1919) e arlequins (Arlequim e Colombina, 1938), as mulheres elegantes (Banhista, 1932) e as mulheres do povo (A Engomadeira, 1938; A Criada, 1948), as mães com os filhos (Maternidade, 1948). São também os lugares que elas habitam (Interior, 1948), as cidades com os seus cafés, as suas tascas, os seus portos, esses “não--lugares” povoados de gente em trânsito que vamos encontrar nos grandes frescos da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, onde o vocabulário pós-cubista é transplantado para os cenários fortemente coloridos de uma Lisboa ribeirinha, nos ritmos do trabalho portuário e dos engenhos, guindastes, escadas, cascos de navios.
O grande Retrato de Fernando Pessoa (1954), obra emblemática da produção pictórica dos anos 50, foi executado para o restaurante lisboeta Irmãos Unidos. O CAMJAP possui uma segunda versão, pintada em 1964. Amigo de Almada desde 1913, Pessoa já havia sido retratado pelo artista, num desenho exposto no II Salão dos Humoristas, em 1913. No retrato de 1954, Fernando Pessoa surge imponente ao centro da composição, com o seu chapéu de feltro e os óculos, numa imagem celebrizada por inúmeras reproduções. No final dos anos 50, concebe algumas experiências de carácter abstracto, como os quatro óleos realizados em 1957 (A Porta da Harmonia, O Ponto de Bauhutte, Quadrante 1, Relação 9/10, na colecção do CAMJAP). Subordinadas ao tema da progressão geométrica, estas obras parecem respirar a mesma sede de ordem – talvez mais mística, neste caso – que acompanhou toda a obra plástica. Um abstraccionismo inscrito nos limites do controlo racional, humanizado portanto, nunca deixando espaço para o irracional ou para a livre expressão, atravessa a obra não figurativa do pintor, num breve intervalo na linguagem da sua eleição, que é a da figuração.
A sintaxe abstracta será retomada mais tarde, no grande mural alegórico Começar (concluído em 1968), inciso na pedra, que reveste o átrio principal da sede da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Aqui, também, a progressão mágica do número, traduzida na forma geométrica, se afirmará como princípio formal da composição.
Nascido na ilha de São Tomé, em 1893, órfão de mãe aos três anos de idade, distante de um pai que o enviara para Lisboa para estudar, em 1900, Almada Negreiros passaria a infância internado em alguns colégios da capital. Desenraizado o homem, a extensão polivalente da sua obra, o desejo de afirmação do artista plural que foi, cumprir-se-ia na tentativa de preencher o vazio existencial que transportou ao longo da vida. Daí, a figura emblemática que criou de si próprio, numa auto-recriação narcísica permanente, com dois grandes olhos negros assimétricos, delineados por uma sobrancelha espessa, a face reduzida a um esquema de linhas rectas, num perpétuo interrogar de si (Auto-Reminiscência, 1949).
Várias vezes premiada, a obra de Almada, para quem ser pintor era “ser dono absoluto de si mesmo”, seria objecto de uma importante retrospectiva em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, em 1993.
ANA FILIPA CANDEIAS
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