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Armando FERRAZ (1968)
Nasceu em 1968, em Lisboa. Estudou Pintura na Escola de Belas-Artes do Porto e é contemporâneo de um grupo de criadores que a revista Confissões do Exílio aglutinou. Ao longo do seu percurso optou pela construção de objectos, pela manipulação de imagens e pela realização de fotografia e vídeo, suportes que instala em simultâneo nas suas exposições. Estas têm sido marcadas por uma abordagem ficcional da realidade construída de linguagens paralelas, provenientes do cinema, da televisão, da fotografia e do design em geral.
O carácter ficcional do real resulta de um artifício que assenta na desconstrução das lógicas mais evidentes, fixadas pelos sistemas de ordem e controlo social. O sentimento ficcional da realidade que encontramos nas suas imagens é dado pela descontextualização produzida entre os lugares e os sujeitos criados. No entanto, esse processo ficcional nunca é totalmente alheado de dados reais, sociais ou psicológicos, nos quais fundamenta o seu processo de criação. O carácter ficcional é, antes, a base da transposição do real, uma via para um hiper-realismo. Neste processo criativo, o trabalho do artista rompe e não se aglutina com o real anestésico normativo. Essa descontextualização permite, em suma, uma reflexão mais aprofundada das estruturas do real às quais nos subjugamos.
As duas fotografias de Armando Ferraz que pertencem à colecção do CAMJAP são representativas do trabalho do artista. Fazem parte da série fotográfica Azul e Rotineiro, que esteve parcialmente exposta na sede da Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito dos 7 Artistas ao 10.º Mês, em 2001.
O seu processo de fotografar implica, geralmente, a construção de um cenário ou a escolha de um espaço onde encontra as características necessárias ao cenário imaginado. No acto de fotografar não há qualquer gesto de instantaneidade em interacção com o real. Para o artista, fotografar é um processo de maturação de experiências pessoais e de compreensão de ambientes culturais que nos são remetidos de forma indirecta por signos sem valor documental.
Por essa razão, o artista está interessado na validade de uma obra projectiva do sujeito. Os sujeitos representados são, em parte, desdobramentos do fotógrafo, bem como de outros sujeitos anónimos, numa complementaridade com o outro, nunca reducionista. As imagens permitem que qualquer de nós se possa reconhecer no ambiente fotográfico criado. Os sujeitos têm uma função representativa e nunca são tratados como seres reais, o que explica que as suas acções não ganhem qualquer protagonismo no interior da imagem. Bem pelo contrário, o carácter ilustrativo das suas acções redu-los a elementos de um cenário, em plano de igualdade com todos os outros elementos que compõem a imagem.
Nesse sentido, a fotografia de Ferraz é a negação de um sentimentalismo positivista de tradição humanista, que depositou no sujeito e no olhar do sujeito uma confiança que foi sempre o fio condutor da acção e a razão do acto fotográfico. Ao contrário, há nas suas fotografias um esvaziamento do olhar, porque elas não pretendem qualquer revelação ou testemunho de verdade. Essa óptica tradicional da fotografia suportada pela ilusão do mimetismo fotográfico permitiu que um momento particular tivesse um carácter universal, que, em última instância, assegurava uma ordem moral.
O carácter ficcional das imagens de Ferraz questiona essa perspectiva de condensação do tempo a um momento essencial da acção, e favorece a ilusão do colapso do tempo, que rompe com qualquer perspectiva totalizadora da imagem. Este processo é enfatizado pelo recurso artificioso de uma composição do real que é descentrada, fragmentada ou parcial. Este relativismo do sentido dos signos neutraliza a verdade absoluta, contrariando as bases do edifício modernista do qual a fotografia foi um dos principais construtores. As fotografias de Armando Ferraz não correm o risco do caricatural, porque não se circunscrevem a um espaço ou a um tempo concretos, nem estabelecem um limite de sentidos. Os sujeitos nelas inscritos não formulam um comentário reducionista do real vivido; são amplamente abertos e criam um espaço para a existência do outro; procuram outros sujeitos com os quais tentam identificar-se. Nesse sentido, a sua fotografia estabelece um pensamento de proximidade que poderia definir-se também como um pensamento da errância.
FRANCISCO VAZ FERNANDES
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