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Gabriela ALBERGARIA (1965)
Nasceu em Vale de Cambra, em 1965. Em 1990, formou-se em Pintura na FBAUP. Entre 1991 e 1993, foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. Actualmente, vive e trabalha em Berlim e em Lisboa.
Entre 1995 e 2000, foi professora no Ar.Co e, em 2000-2001, foi artista residente na Künstherhaus Bethanien em Berlim. Expõe individualmente desde 1990, ano em que realizou Notas na Galeria Monumental, Lisboa. Nesse trabalho, como em Marcas de Água, em 1991, e em muitos trabalhos de pintura até 1997, criava ficções em notas (dinheiro) com representação de figuras de Estado em situações irónicas ou ridículas.
Em 1994, é a avaliação da revolução do 25 de Abril que, na colectiva A Liberdade Está uma Senhora, a leva a expor sete cravos em resina poliester, da altura de uma pessoa, enterrados em moedas e indiciando a contaminação dos ideais pelos interesses económicos. Expunha também grandes estruturas em ferro sobre rodas, com painéis em que desenhou fábulas e seres festivos, mágicos e fantásticos.
A partir de 2001 surgem exposições individuais em Berlim, a par das que vai mantendo em Portugal (Lisboa, Porto, Coimbra), e de uma colectiva em Budapeste (2001).
As fotografias, que integram a colecção do CAMJAP, fazem parte de um núcleo de que foram expostos trabalhos em Berlim, na galeria Kamm, em Budapeste em 2001, e em Salamanca e em Lisboa em 2002. A partir de maquetas de paisagens construídas em estúdio com ramos e folhas recolhidas, mas também com pequenos espelhos e outros materiais não naturais, foram feitas fotografias que parecem de paisagens nocturnas reais. A iluminação fabricada por focos localizados confere aos “locais” reproduzidos o carácter enigmático, isolado, potencialmente dramático que podem ter as reminiscências de infância de um jardim desconhecido, escuro e labiríntico, a sugestão narrativa de um episódio intenso que se prepara, o cenário de uma clareira, uma intenção documental ou uma oscilação entre o pesadelo e o idílio, o absurdo e a descoberta na configuração da memória. Gabriela Albergaria mostrou inicialmente só as fotografias; mais tarde expôs as maquetas à altura dos olhos, podendo ser contornadas e tornando flagrante o contraste entre a sua pequena dimensão e a ilusão de floresta real e do seu fim apreensível que aquelas transmitem.
Essa recuperação de memórias infantis, que permitem explicitar a experiência sensorial e fantasiada do nosso usufruto de bosques e jardins, existe também em títulos como o que apresentou em Coimbra, integrado no projecto Mnemosyne (2000) onde surgem as primeiras maquetas de jardins: Tenho sete anos e o buxo dá-me pelos ombros. As proporções relativas do corpo e do espaço, aquilo que nos permite alcançá-lo mais ou menos, interagir e recriá-lo são questões que já estavam presentes num trabalho de 1997 a 1999, a série a que deu o nome da rua dos pais: Rua Manuel Soares Pinheiro. Uma vez por ano, perfez três exposições dentro dessa série, mostrando fotografias de interiores de uma casa vazia, em cujos corredores subitamente se chocavam dois bonecos de aspecto animalesco. Era ao nível do seu olhar, muito baixo, que o espaço era apreendido – as esquinas assustavam, as sombras não se desvendavam inteiramente... Uma mesma lógica cinematográfica animava o vídeo e as fotos desta série.
No trabalho final na K. Bethanien, em 2001, Studio III, o exercício do olhar, e de uma certa sintonia pulsional com as características de um lugar, tinha sido deslocado para a relação com a natureza, com as estações, com a sobrevivência à cidade. Grandes árvores trazidas para o ateliê, com pequenas maquetas de casas a encimar alguns troncos, ostentavam enxertos e zonas de fractura mecanicamente apoiadas. A ideia da manipulação da génese de seres vegetais aparecia, assim, a pontuar um universo de desafios à nossa apropriação do mundo natural. A reflexão voluntária e racional sobre ela não prescinde, no seu trabalho, dos matizes menos conscientes da experiência intuitiva.
O encontro das duas facetas depende, por vezes, de um tempo de não decisão que fica entre um conjunto de investigações em torno de um ponto de interesse e a criação de uma obra. Foi o caso do trabalho com Morten Schelde, A Room of One’s Own (2002) que resultou da viagem a uma ilha com um lago, no leste de Berlim, preservada e destino privilegiado de campistas. Feitos a partir de fotografias, os desenhos foram construídos em absorções recíprocas e progressivas da contribuição de cada um. Os próprios textos fotocopiados sobre a história da ilha foram escritos (desenhados) a pincel numa recuperação permanente das imagens em que toda a informação se pode tornar.
Não menos importante é a apropriação e configuração de espaços públicos, como no caso de uma aldeia do leste alemão, onde a artista verificou só existirem dois locais de encontro para os jovens, o campo de futebol e a paragem de autocarro, e, a partir dela, inventou o seu banco duplo (virado para o campo e para a aldeia), cujo equilíbrio depende de duas pessoas se sentarem, em simultâneo, costas com costas. Os objectos inventados cumprem uma síntese que reconduz a sua artificialidade ao exterior do ateliê, e os seus materiais naturais às metáforas que interrogam o olhar e a ocupação humana. Em 2001, criou umas caixas-jardim, semiabertas ou podendo fechar-se, em que a solução da maqueta era adoptada para reprodução de jardins de tipo francês, ordenados mas com labirintos, eles próprios domesticação da natureza, circunscritos mas vastos, domados mas lúdicos.
Para a artista, todos os modelos construídos são espaços “reais” – têm a realidade que os informa como obra de arte. Algumas fotografias aparecem como documentação de um processo de trabalho progressivo, no ateliê ou fora dele. Sobrepõem-se a esse processo ou interrompem-no os momentos intensos e conjugados no presente de cada perímetro de realidade.
Em 2003, participa na exposição de arquitectura paisagista Do Estádio Nacional ao Jardim Gulbenkian, com intervenções no jardim, no hall da Sede da Fundação e à entrada da exposição.
LEONOR NAZARÉ
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