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-   Não há sim sem não - O Eremita, 1985, nº inv.: 86P128
Não há sim sem não - O Eremita, 1985, nº inv.: 86P128

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Selecção de Artistas
 
 
 
   
   
 
   

António DACOSTA (1914-1990)

Nasceu em Angra do Heroísmo (Açores) em 1914. Veio para Lisboa, em 1935, onde tirou o curso de Pintura na ESBAL.

Realizou, com António Pedro e Pamela Boden (escultora inglesa) na Casa Repe, em 1940, a primeira exposição surrealista. No ano em que a grande Exposição do Mundo Português, em Belém, servia de fachada à ostentação do regime, configurava-se assim um movimento alheio a esse espírito grandiloquente, antes adepto do interesse pelo subterrâneo da mente e dos arquétipos colectivos.

Dacosta contribuiu plenamente para a introdução do Surrealismo em Portugal. A sua pintura apresenta geralmente um carácter dramático, melancólico ou mesmo violento (Serenata Açoriana, Cena Aberta, de 1940). Dentro do seu imaginário surrealista, uma obra como A Festa (1942), que lhe mereceu o “Prémio Amadeo de Souza-Cardoso”, surgiu com características diferentes, sendo uma figuração em tom naïf e mais apaziguado, uma paisagem com crianças e flores, de grande suavidade cromática.

Em 1944, uma parte da sua obra desapareceu num incêndio no seu ateliê do Chiado. Três anos depois, Dacosta partiu definitivamente para Paris. Desta cidade enviou para a exposição do Grupo Surrealista de Lisboa somente dois trabalhos.

Em 1949, abandonou a pintura, durante cerca de trinta anos. Nesta época, publicou textos de crítica de arte em vários jornais (Diário Popular e Estado de São Paulo) e revistas, tratando-se, porém, de um tipo particular de crítica para quem é simultaneamente pintor: a de um artista que deixou de pintar por necessidade de reflexão. É este o exercício que António Dacosta transporta, com olhos de pintor, para o espaço da escrita.

Recomeçou a pintar por volta de 1975, trabalhos abstractos, de pequenas dimensões, com colagens, muitos deles representando paisagens de ilhas açorianas em composições de carácter simbólico ou mítico, que manifestam a sua origem açoriana e revelam a sua profunda ligação àquelas ilhas.
Na década de 80, o ambiente de convicto regresso à pintura que se fez sentir, com os contornos de uma expressão assumidamente individualista e reflexiva, foram favoráveis ao desenvolvimento da sua investigação pictórica, que se caracterizou pela utilização de temas figurativos em contextos de perplexidade (paisagens e praias, figuras humanas e animais, ninfas, sereias e deuses).

Também com forte carga simbólica, cria as séries As Fontes de Sintra (1980-1987) e Memórias (1980-1983). Nas primeiras, desenvolve, a partir da mesma expressão formal, vários tipos de “fontes”. Umas são enquadradas por frisos, que parecem decorar a obra, algumas com uma paleta que oscila entre os terras, ocres e cinzas, outras pintadas sobre madeira em formato de lua. Mais tarde surgem as “fontes” com pássaros e com o busto de Camões. O símbolo identificador desta série é o brotar da água.

Nas Memórias, que remetem afinal para a memória vivencial do artista, a matriz inspiradora é a pirâmide da Ilha Terceira, como ele próprio explica numa carta, escrita a Rui Mário Gonçalves.

Nas obras O Bailador (1986) e Não Há Sim sem NãoO Eremita (1985), integra uma faceta marcadamente mística. Nesta última, a paleta escura convoca para valores de meditação. No lado esquerdo, introduz traços e uma coluna organizadores do espaço, sendo o lado direito suavizado por outro cromatismo, com uma iluminação mais definida na cabeça e nos ombros do eremita e no livro que este escreve. A caveira surge como ícone associável ao próprio eremitério, simbolizando os valores do pensamento e da morte.
Em 1988, dois anos antes da sua morte, o CAM organizou uma exposição retrospectiva da sua obra.

MARIA ALMEIDA LIMA