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CAMJAP
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Alexandre Estrela,Tv’s Back, 1995,televisão e DVD (p/b, s/som),inv.n.: IM16 Click nas imagens para ampliar
 
Selecção de Artistas
 
 
 
   
   
 
   

Alexandre ESTRELA (1971)

Nasceu em Lisboa, em 1971, e é um dos mais novos artistas presentes na exposição permanente da colecção do CAMJAP. Fez o mestrado em Artes Plásticas na School of Visual Arts, de Nova Iorque, e o curso de Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade Técnica de Lisboa e na Rietvield Academy, em Amsterdão, ao abrigo da bolsa Erasmus.

Tendo começado a desenvolver o seu trabalho na década de 90, Alexandre Estrela participou em algumas das exposições mais significativas organizadas por uma geração de artistas com uma forte consciência acerca das possibilidades e condições que eles próprios podem criar para a apresentação dos seus trabalhos ao público. Em algumas destas exposições, Estrela participou também como curador, actividade que, aliás, mantém actualmente, juntamente com a direcção do festival de vídeo “Hi8 Short Video Festival” – actividades que se assumem como extensões do seu trabalho criativo como artista.

Alexandre Estrela trabalha sobre vários suportes, mas é a sua produção ligada à área do vídeo que mais tem chamado a atenção. Ao trabalhar as potencialidades que a linguagem técnica do vídeo oferece para a criação de imagens, a sua obra promove um questionamento constante da natureza preceptiva da imagem. Segue assim uma prática com origem nos anos 70, altura em que as primeiras câmaras portáteis permitiram aos artistas a exploração de um novo material, mas que se estende até às mais recentes explorações tecnológicas que envolvem o computador: a técnica, neste caso o vídeo, já não serve só como instrumento de captação de imagens, mas também como instrumento de criação de outras imagens, só possíveis por uma manipulação exploratória e inconformista do material utilizado.

Sem grandes requisitos tecnológicos, ou seja, utilizando aparelhos com os quais nos cruzamos de maneira mais ou menos quotidiana, como a câmara de vídeo, o televisor e o projector, Estrela procura potenciar aquilo que normalmente é visto como um erro técnico ou uma falha na manipulação. As reacções mais ou menos imprevistas da máquina são incorporadas na imagem final.

Podemos ver este tipo de exploração em duas obras: The Nails’ Feedback (1998;  pertencente à colecção do CAMJAP) e One in a Million (2003). Em The Nails’ Feedback, uma parede branca, onde se encontram dois pregos, é filmada por uma câmara de vídeo que remete a imagem para um projector, o qual, por sua vez, projecta sobre essa mesma parede a imagem que acabou de captar, gerando um efeito de feedback (regressão infinita das imagens na superfície projectada). Na peça One in a Million, a marca de um pixel (a unidade mínima de imagem num ecrã digital) bloqueado interfere com o seu rasto num percurso filmado nas ruas de Nova Iorque.

Alexandre Estrela mostra-nos o que se pode designar como “assinatura da imagem técnica” e que, opacificando a imagem, nos revela estarmos perante uma realidade tecnológica. É também neste sentido que a nossa percepção como espectadores é desafiada, quando olhamos, por exemplo, para TV’s Back. A precisão do seu gesto, ao mostrar numa televisão a imagem gravada da sua parte de trás, parece no início dar muito pouco espaço ao espectador. A imagem coincide com o objecto apresentado e sublinha-o. Este cruzamento desejado entre a imagem projectada e o objecto real, tendo também como consequência a convergência do tempo passado (o tempo da gravação) com o tempo presente (o tempo da presença do espectador frente ao objecto), dirige-se ao espectador de uma maneira especial: a experiência do objecto artístico é a construção feita pelo espectador a partir deste cruzamento entre o que é real e presente e o que é simulação elaborada no passado.

Para Alexandre Estrela, a arte está também nesse encontro, por vezes dissonante, entre aquilo que cada um de nós sabe que é arte e aquilo que existe objectualizado como arte. Mais importante do que o objecto artístico ou o espectador é o meio onde estes se inserem, o dispositivo gerador de imagens que os alberga e do qual estes fazem parte.

LILIANA COUTINHO