|
Armando BASTO (1889-1923)
Nasce em 1889, no Porto. Morre em 1923, em Guimarães. Em meados dos anos 10, no Porto, participa nos grupos de “Humoristas”, “Fantasistas” e “Modernistas”, expondo caricaturas e composições, entre as quais se destaca O Lindo Gesto da Revolução, que retrata um popular a guardar um banco no dia 5 de Outubro de 1910, dia da proclamação da República. Colabora também em jornais, com desenhos e caricaturas, chegando mesmo a editar folhas satíricas, como é o caso de Lúcifer, Escarrador, O Careca e A Folia, assinando com o nome Armando Pereira Bastos de Loureiro. Admirava Rafael Bordalo Pinheiro, Celso Hermínio e os humoristas franceses e alemães, embora fugisse às influências de todos. A sua primeira exposição individual no Porto era demonstrativa deste início de carreira, sendo composta por ataques políticos, tipos “tripeiros”, vendedores de rua, cenas de miséria, temas de revolta, angústia e comentários a factos locais.
Para Armando Basto, ser modernista era ser livre, e é essa ideia que o leva a Paris, em 1910. Não chega a acabar nenhum dos cursos de Arquitectura, Desenho e Escultura em que aí se inscreve, em complemento dos estudos mal realizados na Academia do Porto, que frequenta de 1903 a 1910. Mantém-se no registo do desenho humorístico, juntando-se a Aquilino Ribeiro e a Leal da Câmara para o lançamento, que viria a revelar-se frustrado, da revista Génio Latino, na qual participariam também Manuel Jardim e Anjos Teixeira. Colabora em alguns folhetos franceses e expõe no Salon des Humoristes, no Palais de Glace. Alguns desenhos desta época eram assinados com um “A” dentro de um quadrado, e outros com o pseudónimo Boulemiche.
Mas o tempo de Paris não foi fácil para o artista, que ali viveu miseravelmente, tendo de recorrer a expedientes vários para conseguir sobreviver, e chegando a permanecer meses no hospital, em 1914.
A pintura, executou-a animado pelos seus companheiros, sobretudo pelo escultor Diogo de Macedo, dentro da vivência da famosa Cité Falguière e da boémia de Montparnasse. Trabalhava em ateliês de conhecidos, com materiais emprestados, como relata Diogo de Macedo: “[…] Um dia de confissões, de exame consciencioso dos seus actos e obrigações na vida, de urgente necessidade no marcar rumo ao futuro e não descambar em pária, encorajámo-lo a tentar a pintura a sério, já que o diletantismo passado lhe não dera nome nem proveitos […]. Oferecemos-lhe tintas, telas e pincéis. O talento, tinha-o ele. Eu prontifiquei-me a ser o seu primeiro modelo e ele pintou então a sua primeira obra: o meu retrato [...]” (Diogo de Macedo, in Exposição Retrospectiva da Obra do Pintor Armando Basto, 1889-1923, p. 10).
Regressado a Portugal, em 1915, dedica-se à pintura e a trabalhos gráficos. Foi o animador do Salão dos Fantasistas do Porto, em 1916, onde, no ano anterior tentara fundar um grupo de Independentes. Volta a expor no Porto em 1918, e em Lisboa, cidade onde tenta fortuna, sem sucesso, em 1923.
Além destes registos não existem na sua carreira outros marcos assinaláveis e, de toda a sua vida, permaneceram apenas algumas dezenas de telas de cenários urbanos e algumas paisagens, pelas quais é acusado de algum “espanholismo”. As suas cenas de interiores, segundo José-Augusto França, revelam as suas fraquezas de pintor algo improvisado e de uma descuidada elegância. A maioria dos seus retratados é incluída nestes cenários, em que existe uma profusão de elementos visuais, como cartazes, telas e outros objectos. Como relata o próprio Diogo de Macedo: “O quarto que ele ocupava na Vila Falguière era uma ‘feira da ladra’, de porta aberta, tendo amontoada sobre mesas e cadeiras uma chusma de coisas incomodativas: livros, desenhos, cartas, fotografias, catálogos de exposições, roupa, telas pintadas e por pintar […] e um violão” (ibidem, p. 5). Exemplo disto é o Retrato do Dr. Pimentel, de 1918, cujo subtítulo é O meu violão, que não tem cordas, só serve para isto. O violão é um elemento que acompanha muitas vezes os seus retratados. Uma curiosidade de alguns destes retratos é o facto de que quando os alterava, ao retomá-los em fases posteriores de trabalho, os deixava incompletos, por não querer ofender a sensação inicial que havia captado a sua imaginação.
CARLA MENDES
|
|