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Lourdes CASTRO (1930)
Nasceu no Funchal, em 1930. Entrou para a ESBAL em 1950, completando o curso de pintura seis anos depois. Realizou a sua primeira exposição individual no Funchal, em 1955, participando paralelamente em algumas exposições colectivas na capital. Em 1957, como muitos dos artistas da sua geração, optou por sair do país, vindo a beneficiar, depois, de uma bolsa de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian.
Após uma breve passagem por Munique, instalou-se em Paris, com René Bertholo. Juntos dariam os primeiros passos para a criação da revista KWY (1958-1963), projecto em que radicaria a formação de um grupo homónimo. Isento de manifestos e alheio a normativas plásticas, o grupo associava a Lourdes Castro e René Bertholo o búlgaro Christo, o alemão Jan Voss e um conjunto de artistas portugueses composto por José Escada, João Vieira, Costa Pinheiro e Gonçalo Duarte. A sua existência efectivar-se-ia pelas representações colectivas em exposições (Saarbrüken, 1960; Lisboa, 1960; Paris, 1961; Bolonha, 1962), pela acção editorial e pelas responsabilidades partilhadas na produção dos exemplares serigrafados dos doze números concretizados da revista.
O registo abstraccionista das telas, produzidas nos anos iniciais da sua estada em Paris, como o das que trouxe à SNBA em 1960, integradas na mostra nacional do KWY, alterou-se radicalmente a partir de 1961. Nessa data, abandonou, aliás, os suportes tradicionais da pintura. Sensível à coeva afirmação do Nouveau Réalisme, apostou, num primeiro momento, na criação de objectos construídos, a partir da assemblage de bens de consumo e de uso corrente. Frequentemente respigadas de uma condição de desperdício, essas peças impregnadas da memória do mundo vivenciado eram arrumadas em caixas e cobertas de tinta de alumínio, que, com a sua cor prata, lhes conferia unidade e aura.
A produção de objectos aprofundou, num segundo momento, o seu interesse pelo trabalho da sombra. Em torno da problemática original da representação desse contorno desmaterializado, que é sinal paradoxal da presença material dos objectos e sujeitos onde, algures, incidiu uma luz, se concentraria toda a sua obra futura. A sequência de pesquisa empreendida partiu de experiências ao nível da impressão serigráfica (base da produção da KWY), passando depois à fixação de silhuetas de amigos projectadas em tela. Seguiu-se a utilização do plexiglas, que, a partir de 1964, lhe permitiria conciliar a criação de objectos com o exercício da sombra, em complexa e paradoxal fusão do objectual numa dimensão imaterial, favorecida, neste caso, pela transparência do plexiglas. Colorido ou recortado, este suporte foi muitas vezes utilizado em placas sobrepostas, de modo a dotar as sombras evocadas de sombra própria. É o que sucede com o contorno da Sombra Projectada de Christa Maar (1968): a “caixa de ar”, que o destaca do fundo, expõe a sombra à sombra, criando um efeito que, neste caso, a opção monocromática torna ainda mais paradoxal, na medida em que esbate a programada separação entre figura e fundo.
As silhuetas ganharam real animação nos seus projectos de encenação, mais propriamente no teatro de sombras, a que se dedica a partir de 1966. Estas acções, inspiradas na tradição chinesa e nos happenings, tornaram-se mais frequentes após uma estada em Berlim, entre 1972 e 1973, quando decide dedicar-se exclusivamente ao seu estudo e aperfeiçoamento. A colaboração de Manuel Zimbro efectivou-se nos anos imediatos, sendo os espectáculos As Cinco Estações (1976) e Linha do Horizonte (1981) concebidos a duas mãos.
As sombras ocuparam também lençóis: “Depois de ter retirado as sombras da sombra, de lhes ter dado cor e transparência, uma vida independente, estendo-as”, escreve em 1969. Deita-as em camas desfeitas, onde se mostram os contornos bordados de silhuetas que presentificam corpos ausentes registados, afinal, como memória. A investigação sobre a sombra sempre se cruzou, de resto, com a reflexão sobre o tempo e a memória. Veja-se o seu Álbum de Família (onde vem compilando imagens, pensamentos, excertos, relativos à sombra), a acumulação de pétalas de gerânio da sua Montanha de Flores, iniciada em 1988, ou ainda a Peça que concebeu com Francisco Tropa, para a Bienal de São Paulo de 2000, na qual, sobre uma mesa imensa, uma peça de pano branco foi desenrolada e sujeita a uma iluminação potente que convoca um universo diferenciado de sombras: as da topografia dos vincos e dobras e as dos que se aproximam para olhar.
Merece destaque, por último, o “Grande Prémio EDP Arte” que lhe foi atribuído na edição de 2000. Este prémio estaria não só na origem da mostra realizada no Museu Serralves (Sombras à Volta de um Centro, 2003), mas impulsionou também o CAMJAP a expor, pela primeira vez, as frágeis folhas do Grande Herbário de Sombras. Uma iniciativa que a edição fac-similada deste álbum, em dois formatos (pequeno e grande), pela Assírio & Alvim, veio ainda completar.
JOANA CUNHA LEAL
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