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Eduardo BATARDA (1943)
Eduardo Batarda nasceu em Coimbra em 1943. Fez os estudos primários e secundários em Coimbra, e inscreveu-se em Medicina, que só frequentou durante um ano, canalizando os seus interesses para as crises académicas e as actividades culturais universitárias. Veio depois para Lisboa frequentar a ESBAL, de 1963 a 1968.
A sua obra tem uma primeira fase, narrativa, caracterizada pela disjunção entre imagens violentas e rebarbativas, servidas por um humor desinibido e (des)articuladas de/com textos ou escritas. O trabalho é marcado por contrastes de negros, vermelhos e brancos ou por harmonias de vermelhos. Fez a primeira exposição individual em 1968, na Galeria Quadrante. Praticava então uma figuração para a qual podem servir de referências: a cultura pop em geral; as técnicas e métodos da banda desenhada e da ilustração, as influências de figurações “marginais” ou “baixas”.
Entre 1968 e 1971, cumpriu o serviço militar e dedicou-se à ilustração e realização do livro O Peregrino Blindado (The Blind Penguin), de 1970, em cujo título joga com o (des)encontro das palavras nas duas línguas. Entre 1971 e 1974, frequenta o Royal College of Art, em Londres, na qualidade de bolseiro da Fundação Gulbenkian, e decide dedicar-se à aguarela, da qual adquire um notável domínio técnico.
Regressa a Portugal em 1974, e expõe na Fundação Calouste Gulbenkian, em 1975. Estas obras prolongam o tipo de figuração, cromatismo e humor dos trabalhos anteriores, revelando uma maior insistência em tópicos eventualmente escandalosos de natureza sexual e multiplicando alusões literárias e comentários à actualidade artística e política. Do ponto de vista compositivo, a compartimentação/disjunção é frequentemente preterida por organizações eclécticas, mais unificadoras. Persistem, no entanto, uma multiplicidade de níveis de leitura, tipos de imagem e registos de comunicação que reforçam a ambivalência e abertura das obras. No final da década de 70, muda-se para o Porto e começa a leccionar na ESBAP.
A década de 80 corresponde a uma viragem. O autor adopta um leque cromático mais austero, adensa e encobre a sua rede de citações, alargando-a a toda a história da arte, convocada quer através de arquétipos formais recorrentes quer através dos pormenores mais eruditos. A intenção de comentário torna-se menos explícita e mais cifrada.
As pinturas mostradas entre 1985 e 1987, entre as quais se inclui Néctar (1984), revelam um reforço da austeridade cromática, e um ainda maior alargamento e obscurecimento dos elementos referenciais ou citações estilísticas convocadas em cada quadro. Merece particular atenção o modo de utilização da cor. O autor começa por trabalhar com diversas cores, posteriormente obliteradas com branco, sobre o qual vai aplicando camadas semitransparentes de negro ou tonalidades aproximadas, conduzindo a um gradual desaparecimento da cor que, no entanto, continua a transparecer aqui e ali. A “entrada” dos negros corresponde também a uma fase de definição das linhas e das formas finais do quadro, sobrepostas às formas iniciais, traçadas de forma mais gestual ou espontânea, embora numa construção repetitiva, exaustiva e morosa. No plano de uma leitura emotiva, imediata, estas pinturas tendem a sugerir um efeito de vertigem, turbilhão, abismo – por vezes são literais representações de vórtices.
Ao longo da década de 90, as pinturas, cujas cores voltam a disputar a primazia ao negro, parecem abrir-se de novo, como que de dentro para fora, reforçando a dimensão dinâmica das formas. Os trabalhos de 1997 reforçam a tendência para a diversificação, convocando elementos de anteriores momentos da obra do autor.
A partir do ano 2000, a pintura de Eduardo Batarda entra no que podemos considerar uma nova fase, caracterizada por uma clara distinção entre fundo e forma, contrastando duas cores uniformes, com predomínio de pretos, cinzentos e tons pardos, mas sem excluir alguns luminosos exemplos de delicados tons pastel. A palavra forma é talvez demasiado simples para designar uma mancha recortada de modo muito complexo e caprichoso, por vezes muito cheia, sugerindo formas orgânicas ou a sua caricatura, outras vezes muito longilínea, eriçada de gumes e ângulos abruptos. São trabalhos que definem um momento superior de maturidade e depuração da pintura de Batarda, aliando uma certa contenção formal, uma espécie de apaziguamento, à capacidade de infinita e humorada multiplicação de sugestões e hipóteses de leitura que caracteriza todo o trabalho do autor.
ALEXANDRE MELO
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