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José ESCADA (1934-1980)
Nasceu em Lisboa em 1934, cidade onde virá a morrer, em 1980.
Iniciando a sua formação na Escola de Artes Decorativas António Arroio, que termina em 1950, Escada ingressa no mesmo ano no Curso Especial de Pintura da ESBAL, onde conhece René Bertholo, Gonçalo Duarte, Costa Pinheiro e Lourdes Castro, com quem trava amizade. Em 1954, expõe com esta artista no Centro Nacional de Cultura, tendo tido a sua estreia expositiva no ano anterior, na VII Geral de Artes Plásticas, certame em que continuará a participar até 1956.
Em 1956, José Escada partilha com René Bertholo, Gonçalo Duarte e João Vieira o ateliê por cima do Café Gelo. O contacto com estes artistas, que já vinha da altura da ESBAL, irá perdurar até aos anos em que esteve em Paris, quando integra o grupo KWY.
A sua obra é constituída em torno dos valores poéticos conferidos pela pureza das linhas e das cores. Os primeiros desenhos, maioritariamente realizados a tinta-da-china sobre papel, manifestam já algumas das questões centrais da sua obra, apresentando imagens praticamente feitas de contornos e definidas por agitadas mas seguras linhas em que diversos elementos se sobrepõem e se articulam, gerando formas orgânicas que se desenvolvem dentro de uma mesma escala.
No início dos anos 60, a sua pintura ainda se aproxima de alguns dos valores expressos pelos desenhos, mas afasta-se mais explicitamente da figuração, ao abandonar as linhas de contorno e ao criar diluições de formas orgânicas em que os contrastes cromáticos e as diversas intensidades lumínicas sobressaem.
Este período do início da década de 60 coincide com a sua mudança para Paris, onde integra o grupo KWY, juntamente com os artistas do Café Gelo e ainda com Lourdes Castro, Costa Pinheiro, Jan Voss e Christo.
Será nestes anos de ligação ao KWY que o artista desenvolverá plenamente o seu vocabulário formal, marcado pela definição de pequenas figuras abstractas e aparentemente simétricas, no qual é notória não só uma procura de equilíbrio entre valores lumínicos e cromáticos (em grande parte possibilitados pelo uso da aguarela, que cria finas e translúcidas velaturas), como também uma articulação a questões espirituais e metafísicas, expressas por uma pesquisa em torno do transcendental e da sua compreensão. Este interesse será, aliás, expresso pelo artista: “procurei uma razão mais vasta, que incluísse o mistério, que explicasse mais as coisas” (1958). Esta procura de uma ligação da arte a questões espirituais já se tinha manifestado nos meados dos anos 50, quando aderiu ao Movimento de Renovação da Arte Religiosa, formado por um grupo de artistas que procuravam articular a arte moderna com manifestações espirituais e religiosas.
Durante o início da sua estada parisiense é nomeado pela Fundação Calouste Gulbenkian para trabalhar com doze artistas de diversos países, num projecto da empresa tabaqueira holandesa TURMAC, o que lhe permite uma profícua permanência de alguns dias em Amsterdão.
Quando não usa a aguarela, Escada cria composições abstractas a óleo, como é o caso da obra Sem Título (1965), em que as diluições se transformam em formas autónomas, articuladas entre si por zonas de sombra, que tendem a aumentar nas áreas periféricas da composição. Deste modo, os signos ao centro destacam-se dos laterais por um intenso cromatismo e luminosidade, criando imagens que remetem para os reflexos e ritmos coloridos dos vitrais das catedrais góticas.
Pela mesma altura, o artista materializa as suas pesquisas sobre as formas e sobre a luz, ao criar pinturas-objecto, em papéis coloridos, recortados e dobrados de modo simétrico. Para estas criações, vai ser extremamente importante o seu interesse pela anatomia óssea: os seus recortes evocam formas, que, mais do que simplesmente orgânicas ou figurativas, se relacionam com o corpo humano e com os seus ossos (sobretudo os da coluna vertebral).
O que antes era claro-escuro torna-se agora num jogo de sombras reais e de objectos que se manifestam no espaço envolvente, sobretudo a partir do momento em que abandona o papel para recortar em acrílico e em folha-de-flandres.
O Relevo Espacial (1974) é a síntese desta pesquisa em torno das relações forma/corpo, luz/sombra. Um enorme conjunto de pequenas chapas metálicas recortadas (que diminuem de tamanho do centro para os lados) e dispostas em quadrículas irregulares entra pelo espaço e deixa-se invadir pela atmosfera e luz envolventes, de modo a criar diferentes reflexos que geram zonas de quase penumbra em contraste com outras totalmente iluminadas. O gosto pela linha e pelas formas agitadas permanece visível nos delicados recortes do ferro, que revelam um sem-número de figurações.
Nos seus últimos trabalhos, o artista dedica-se novamente à pintura, desta vez mais ligada à sua memória e vivência pessoal.
ANA FILIPA RAMOS
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