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-   Man Ray, 1973, nº inv.:FP83
Man Ray, 1973, nº inv.:FP83

CAMJAP
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Selecção de Artistas
 
 
 
   
   
 
   

Pepe DINIZ (1945)

Fotógrafo freelance em Nova Iorque desde 1975, Pepe Diniz (n. Tânger, 1945) é internacionalmente reconhecido quer pelas suas imagens da cidade quer, sobretudo, pelos seus retratos de artistas plásticos, escritores, cantores, fotógrafos e outros criadores que com ele se cruzaram em algum momento e assim passaram a fazer parte do seu mundo e da sua obra. O núcleo de imagens que integra a colecção do CAMJAP constitui precisamente uma excelente amostragem destes retratos cúmplices de Pepe Diniz, com particular incidência nas décadas de 1970-1980. Tem trabalhos seus publicados em diversas revistas, das quais se destaca a magazine fotográfica canadense OVO (cf. Jorge Guerra).

Filho de mãe romena e pai indo-português, Pepe Diniz nunca viveu em Portugal mas tem por língua o português. A infância e a adolescência passou-as em Espanha, em Moçambique e na África do Sul, tendo estudado fotografia, a partir dos 24 anos, na Suíça (no Institut de Photographie de Genève) e em França, onde chegou a ser fotógrafo da Cinemateca Francesa (Paris, 1972-1974). Trabalhou depois em Bruxelas e em Nova Iorque, cidade onde fundou, logo em 1975, a Bleecker Gallery e que escolheu até hoje para viver e continuar a fotografar.

“Cidade de estrangeiros”, cidade fotogénica pela sua natureza diversa (que a tornou tão paradoxalmente única), Nova Iorque é o palco predilecto de grande parte das imagens de Pepe Diniz. As suas fotografias são intrinsecamente urbanas, no que essa condição tem de construção e artificialidade. Por isso, prefere a rua ao estúdio, o desafio do imprevisto a um sistema normalizador, delegando nas possibilidades da câmara escura o grau de manipulação das suas representações. É no laboratório (experimental), e não no estúdio (cenográfico), que Pepe Diniz trabalha minuciosamente cada imagem, afectando uma vez mais com as suas escolhas óptico-químicas cada etapa transfiguradora das coisas e pessoas fotografadas. Cada retrato é então uma “natureza viva”, uma imagem tocada física e metaforicamente pelo fotógrafo, “uma interpretação da pessoa retratada”, segundo as suas próprias palavras.

É aí, nessa galeria de notáveis, particularmente reconhecidos nos dias de hoje, que encontramos as caras e os ambientes que fazem parte da própria biografia de Pepe Diniz: Man Ray, Andy Warhol, Robert Rauchenberg, Salvador Dalí, Roy Lichenstein, John Cage, Jorge Luis Borges, Glauber Rocha, Robert Frank e também Sarah Affonso, Thomaz de Mello, Louis Dourdil e Amália Rodrigues, entre muitos outros rostos por si revelados em profunda cumplicidade. A intimidade que perpassa em todos eles é, afinal, uma conquista interna à própria imagem, onde a diferença se afirma no detalhe irónico e irreverente, por vezes até de um pormenor aparentemente à margem do retratado.
 
Por isso, cada fotografia é o resultado de uma relação pré-existente, mas personalizada nas suas várias etapas constitutivas: da percepção à edição, passando por todos os passos intermédios (captação, revelação, ampliação, fixação; enfim, montagem). Ou antes, como diria Pepe Diniz: “Gosto da fotografia porque posso utilizá-la como uma espécie de passaporte que me facilita o acesso a outros seres humanos e a uma variedade de coisas que me interessam. [...] Como não tenho muito interesse em conhecer a técnica avançada de fotografia, utilizo sempre o mesmo revelador para os filmes e outro mesmo para as ampliações. E quase sempre o mesmo papel. Desta forma, o caminho tem poucas variantes, mas a paisagem é sempre nova.”

LÚCIA MARQUES