APRESENTAÇÃO
EXPOSIÇÕES
COLECÇÃO
INICIATIVAS EDUCATIVAS
AGENDA
PUBLICAÇÕES
IMPRENSA
  Colecção
-   Alexandre Conefrey, Agora estou bem, 2003, nº inv.:03DP1839
Alexandre Conefrey, Agora estou bem, 2003, nº inv.:03DP1839

CAMJAP
Rua Dr. Nicolau de Bettencourt
1050-078 Lisboa

Horário de Funcionamento
De terça a domingo das
10h00 às 18h00

Você está aqui:  Homepage / Colecção / Selecção de Artistas
Alexandre Conefrey, Agora estou bem, 2003, nº inv.:03DP1839 Click nas imagens para ampliar
 
Selecção de Artistas
 
 
 
   
   
 
   

Alexandre CONEFREY (1961)

Nasceu em Lisboa, em 1961. Fez o curso de Desenho no Ar.Co, entre 1993 e 1995. Participou no Programa de Trocas entre o Royal College of Art, Londres, e o Ar.Co, subsidiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Efectuou várias exposições individuais e colectivas, destacando-se a sua participação nas exposições 7 Artistas ao 10.º Mês, em 1996, Últimos Dias, em 2000, e Guardi, a Arte de Memória, em 2003.

Alexandre Conefrey tem construído um corpo de trabalho assente essencialmente na prática do desenho como forma de (d)escrever o mundo. Esta prática pode ser explorada por dois lados simultaneamente: por um lado, as temáticas que atravessam a sua produção; por outro, a materialidade da sua obra. Comecemos pela segunda.

O suporte de cada obra, ou série, é motivo de cuidada consideração para Alexandre Conefrey. Relacionado com uma faceta mais artesanal da sua prática, selecciona-o meticulosamente para melhor se adequar à obra em questão – pergaminho, marfim, placas de madeira, tela, papel de variadas densidades.

O formato das peças também é merecedor de ponderada reflexão. Dos diversos formatos utilizados, o livro é um dos eleitos. Um livro escrito sob a forma de desenho, no qual o espectador assume o papel de narrador ou, pelo menos, tem a tarefa de reconstituir a narrativa através da leitura sequenciada das folhas soltas.

Não obstante os diferentes formatos e suportes utilizados, subjacente à sua produção encontramos os mesmos motivos e preocupações temáticas. Vista em conjunto, a sua obra é um meditar sobre as forças que animam a civilização ocidental, que, para o artista, se consubstanciam nos conflitos bélicos, principalmente os da época moderna.

Desta forma, as suas peças constituem-se como ensaios trágicos sobre a humanidade, onde é revelado um passado histórico perturbador, mas onde simultaneamente se aspira a um futuro redentor.  As suas obras são igualmente reflexões sobre a memória histórica e cultural, ética e poética da cultura ocidental e do próprio artista.

A sua abordagem estética é citacional, ou seja, estabelece-se na apropriação de uma série de referências e imagens de outras obras, ilustrações, fotografias (suas ou de uma qualquer publicação), e subjacente a este exercício de citação, o artista opera uma descontextualização das próprias imagens. Conefrey isola determinado elemento – como por exemplo os soldados de um campo de batalha, ou o campo em si – deslocando o seu sentido e a sua leitura imediata e convertendo-o numa metáfora ou num emblema.

Além da temática da guerra, a paisagem é outro elemento que atravessa toda a sua produção, estabelecendo-se frequentemente como pano de fundo das suas composições, como plataforma para o desenrolar da acção, que nunca chega a tornar-se visível. A acção é congelada no tempo, possibilitando a sua revisitação e meditação nos “e se…” da história da História.

A paisagem acaba por usurpar a acção, transformando-se ela própria no motivo central de reflexão da obra. Ela é sublimada e romantizada para além da dimensão humana que a teria informado noutro contexto.

Estas são imagens extremamente irónicas, em que, por detrás de algo manifestamente belo, se escondem algumas das situações mais trágicas da história da humanidade. Este contraste de significações é sugerido ou reiterado através do título da obra.

A palavra assume assim um papel de relevo. Para além da sua função descritiva da obra, ela é frequentemente incorporada na própria imagem. De listagens de nomes de judeus enviados para campos de concentração, a nomes de submarinos e de batalhas, de hieróglifos a citações, também a palavra adquire uma dualidade de sentidos: um sentido literal, mas também, e talvez até com maior relevância, um sentido icónico. Segundo Walter Benjamin, a palavra possui uma aura própria e, na obra de Conefrey, é transformada em elemento visual, adquire uma dimensão poética à luz da poesia concreta de Ian Hamilton Finlay.

De salientar ainda o trabalho cromático deste artista, que, fortemente influenciado por uma estética pop, é marcado pela artificialidade e pela inversão de valores, adicionando mais uma camada de significação às já espessas imagens.

FILIPA OLIVEIRA