|
Pedro CABRITA REIS (1956)
Nasceu em Lisboa, em 1956. Pintor formado pela ESBAL, expõe a sua obra desde o início dos anos 80. O exercício privilegiado da pintura e do desenho, patente nas primeiras mostras do seu trabalho, foi cedendo lugar a uma ampla diversificação das técnicas e dos materiais, convocados para a criação de objectos/construções/instalações, que, no final da década, eram já a face mais conhecida da sua obra. Esta viragem não foi sinónimo de abandono dos meios de produção anteriores.
A prática sistemática do desenho permaneceu intocada – veja-se a série de auto-retratos integrados em O Rosto da Máscara (CCB, 1994) –, tal como parte significativa das obras reunidas na sua última grande exposição nacional (Serralves, 1999) veio repor valores pictóricos no seu trabalho. Seja como for, o conjunto da sua produção escapa intencionalmente a qualquer categorização disciplinar, potenciando cruzamentos de uma variedade inesgotável na produção de obras que mantêm, além disso, em muitos casos, uma relação vital com o espaço onde se instalam. Comecemos então por assinalar que as séries dos objectos/construções /instalações são habitualmente realizadas a partir da utilização de matérias comuns no mundo que habitamos. Embora o plexiglas, o alumínio e as tintas de esmalte ou acrílicas sejam recorrentes em trabalhos mais recentes, a maioria das suas obras é realizada a partir de um núcleo vasto de materiais de construção civil, a que se somam cartões, panos, feltros, tape, etc., e um conjunto de objectos de uso quotidiano (cadeiras, jarros, cestos, lâmpadas, portas, entre outros).
Dessas matérias-primas resultam, à primeira vista, formas e situações familiares. Porém, cedo nos damos conta da sua estranheza, da provocação que nos lançam, na medida em que, embora retenham a memória da sua execução material, o comum, o habitual lhes foi radicalmente arrancado. Dito de outro modo, os seus trabalhos pertencem a um território livre da pretensa clareza de fórmulas explicativas, descritivas ou ilustrativas, e expandem, por isso mesmo, as possibilidades de construção do mundo. É o que nos mostra o primeiro grande balanço do conjunto da sua produção, realizado em 1994 pelo CAMJAP, onde este Meus pais deram-me aquilo que podiam, alma da sua diversa, de 1993, já se integrava; é o que continuam a mostrar-nos as duas recentes instalações concebidas para a 50.ª Bienal de Veneza em 2003.
Confrontamo-nos, em qualquer dos casos, com uma linguagem plástica em que a naturalização forjada dos significados readquire a sua condição arbitrária, devolvendo-nos, nas suas próprias palavras, o “genial e absoluto caos inicial” (Pedro Cabrita Reis, 1992: 148). Como o próprio afirma, é a partir deste caos que a inteligência da arte deve agir: “nas ‘mãos’ do artista [ele será] matéria para a permanente construção do mistério, pois a arte, ao contrário das outras formas de conhecimento, será tanto mais perfeita quanto maior for o grau de obscurecimento a que nos conduza.” (idem).
Confrontamo-nos, em suma, com um universo onde, independentemente do grau de simplicidade ou complexidade, as formas arquitectadas – que podem evocar cidades, casas, janelas, portas, escadas, mesas, cursos de água, fontes, diques, etc. ou permanecer abstractas – procuram cumprir “o absoluto desejo de metáfora” (idem), obscurecendo o dado para, finalmente, o abrir num sentido indeterminado, mais produtivo e verdadeiro, porque mais poético.
Instalando um mundo, os trabalhos de Cabrita Reis iluminam a essencialidade oculta da terra que nos dá guarida, constrangendo-nos a habitá-la poeticamente. Como confessa numa entrevista concedida à Arte Ibérica (n.º 32, Fev. 2000): “Um dos meus anseios mais profundos é que, após verem uma coisa minha, as pessoas identifiquem a realidade através dos meus trabalhos. Isto é, vêem a escada, o Posto de Observação, vêem a Catedral e, depois, ao passarem por um prédio em construção numa colina, não poderão jamais desligar-se do que viram. A arte, se se pretende como meio ou instrumento para expandir a inteligência ou a percepção do mundo, tem aqui uma função unificadora.”
JOANA CUNHA LEAL
|
|