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Fernando Calhau, Timeless, 1994, nº inv.: 94P344 Click nas imagens para ampliar
 
Selecção de Artistas
 
 
 
   
   
 
   

Fernando CALHAU (1948-2002)

Nasceu em Lisboa em 1948. Concluiu o curso de Pintura da ESBAL em 1973, partindo nesse mesmo ano para Londres, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. Na Slade School of Fine Arts, completou os seus estudos na área de gravura, com Bartolomeu Cid dos Santos. A prática de gravador vinha sendo decisiva num percurso que se iniciara precisamente, pela aprendizagem na Cooperativa Gravura, instituição onde realizou a primeira exposição individual do seu trabalho (Gravuras Brancas, 1968).

A mostra reunia um conjunto de relevos geométricos isentos de cor, gravados sobre papel branco, que lançam a depuração geométrica e o monocromatismo da sua produção pictórica futura. Através da gravura, e mais precisamente através da condição de reprodutibilidade que lhe é inerente, o artista desenvolveu igualmente outro dos princípios que nortearam o seu trabalho posterior: a serialidade.

Depuração geométrica, monocromatismo e serialidade fundam os pressupostos da sua linguagem plástica. Uma linguagem conceptualizada, no sentido em que cada série é invariavelmente norteada pela iteracção de uma equação pré-concebida, que toma sempre novas, mas quase imperceptíveis, qualidades de resolução formal. A subtileza desta variação resulta da opção pela radical contenção dos meios de expressão, já presente nos seus primeiros trabalhos, mas sistematicamente aprofundada, depois, a partir do horizonte da arte minimal.

Na pintura, as formas quadradas cedo se tornaram preferenciais, e o colorido, restringido à gradação do preto e branco, chegou mesmo ao negro integral, pela primeira vez, numa série de desenhos de 1970. Houve, porém, um momento em que o monocromatismo vigente perdeu a tendência acromática e foi compatibilizado com a introdução da cor: em 1972 iniciou uma série de pinturas verdes, trabalhadas em variações tonais e luminosas. Nestas telas prosseguia o propósito de “utilizar o mínimo de meios expressivos num qualquer tipo de trabalho, reduzir ao mínimo o ruído, transformar as coisas no essencial” (Work in Progress, 2001), que haveria de o conduzir a um vincado antiformalismo e, bem assim, ao abandono momentâneo dos suportes da pintura, a favor do domínio da fotografia, do filme e do vídeo, que com ela se cruzam.

Ainda durante a sua estada em Londres (1973-1974), começara a fotografar superfícies naturais (relva, rocha, areia, mar) destinadas à execução de fotogravuras. Essas imagens acabaram por se autonomizar, passando também para o suporte fílmico (Mar I, II e III, 1976), na medida em que, na sua topografia, o pintor descobre questões fundamentais, como a relação entre espaço e tempo, que direccionaram, desde então, o seu trabalho. Durante este período, manteve-se fiel à base serial e monocromática da prática pictórica anterior, agora abandonada. Como o próprio afirma: “Fiz fotografias em função do conceito, e não era uma imagem isolada, era uma série de imagens relacionadas com uma cor ou com uma legenda, ou com um outro objecto físico qualquer, que não era para ser entendido como uma fotografia que se podia emoldurar e que podia valer como fotografia ela própria.” (idem, p. 129)

No final da década de 70, a série Night Works veio fechar o ciclo de afastamento da pintura, que as placas de cor associadas a fotografias anteriores não haviam quebrado. Nas novas telas, o monocromatismo reveste-se dos tons da noite, ganhando uma conotação simbólica explicitamente ligada ao universo do romantismo, que ressurgirá nos valores atmosféricos das suas pinturas mais recentes (Galeria Cristina Guerra, 2001). Simultaneamente, os Night Works introduziram novos procedimentos na obra de Fernando Calhau, de que a utilização do néon (árgon, mais precisamente) na escrita de palavras será, sem dúvida, uma das inovações mais evidentes e mais importantes, na medida em que a sua luz azul expande a conotação simbólica dos conceitos em expressão.

Os Night Works abriram igualmente o caminho para que, nos anos 80, investisse na produção de uma série de telas configuradas (shaped canvas) e para que o ferro, a par da tela, emergisse como suporte preferencial da sua pintura. Manteve-se todavia intocada a validade dos pressupostos fundadores da sua obra. Mais precisamente, no trabalho de Fernando Calhau, a diversificação dos meios é orientada por uma exigência de coerência conceptual, como amplamente demonstrou o conjunto das obras patentes na exposição realizada pelo CAMJAP, em 2001, apenas alguns meses antes da sua morte, que ocorreria no ano seguinte.

JOANA CUNHA LEAL