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Sarah AFFONSO (1899-1983)
Sarah Affonso nasceu em Lisboa, a 13 de Maio de 1899, num contexto de final de século, agitado e repleto de mudanças de mentalidades e políticas, que viriam a culminar no Modernismo português.
Era a mais velha de seis irmãos, facto que se tornou demasiado importante pela grande dedicação à família a que foi obrigada.
Não será, contudo, a capital onde nasceu que marcará a sua vida e obra. Aos cinco anos, vai viver para Viana do Castelo e será das memórias daquele céu azul, do mar e de todo o quotidiano do povo campesino, das festas, procissões, brinquedos de feiras e pescadores, que viverá a sua pintura. Há nela uma ingenuidade e um imaginário colorista trazidos da infância. Veja-se, por exemplo, Casamento na Aldeia ou mesmo Meninas (esta última exposta no Salão de Outono, em Paris, em 1927).
Frequentou o curso de Pintura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, onde teve a sorte de ser a última aluna de Columbano, recebendo toda a protecção ao ser considerada sua discípula, ainda que, cedo, Sarah se afastasse do naturalismo que o caracterizava.
Aprendeu a procurar com o pincel o sentimento íntimo de cada personagem retratada e a interpretação psicológica das figuras. Disto é exemplo a obra actualmente exposta no CAMJAP, Retrato de Tagarro e Waldemar da Costa (1929). O ar frio e distante dos retratados, apesar de um deles nos encarar numa espécie de desafio, mistura-se a uma atitude ausente, pensativa e indefinida. As cores densas e escuras remetem para essa expressividade interior, e as diferentes tonalidades do fundo unem, no retrato, os dois homens, tornados indissociáveis. Nas faces surge o mesmo tom verde que aparece na camisa de um deles e numa faixa do fundo, reforçando esse ciclo de interacção. Ela é intensificada também pela faixa vermelha ao centro, que une e separa as personagens e sublinha a expressividade das faces reunidas nesse ponto. Os dedos das mãos são indefinidos. A roupa é igualmente tratada como um acessório e sem pormenor. O uso de pinceladas largas define superfícies que suavemente mudam de tom mas são espaços muito marcados.
Noutros trabalhos, Sarah Affonso retrata também a família, num imaginário simbólico e afectivo que invoca, mais uma vez, toda a iconografia popular.
Num contexto de revoluções, mas marcado por muitos preconceitos, Portugal ficara atrasado e não dera, ainda, o salto para o novo século XX, vivendo à margem da vida artística e intelectual europeia. Sarah, apercebendo-se disso, partiu para Paris, como aliás fizeram quase todos os grandes artistas da sua geração.
Os famosos anos 20, recheados da sumptuosidade da “Belle Époque”, são vividos por Sarah, em Paris, desfrutando de tudo o que de melhor se fazia na época – desde a pintura, à música e ao teatro, passando ainda pelos Ballets Russes – e criando a sua própria maneira de ser moderna (que aprendeu também com Almada).
Participou em várias exposições individuais e colectivas ao lado de grandes artistas internacionais e outros portugueses, como Eduardo Viana.
Quando regressa a Lisboa, frequenta A Brasileira, a par dos intelectuais da altura, com quem tem oportunidade de conviver, apesar de não ser muito convencional uma mulher frequentar a boémia do meio artístico.
O imaginário das suas composições foi sendo influenciado por esse meio por onde circulava, frequentado também por Almada Negreiros, Mário Eloy, Santa Rita, Robert e Sonia Delaunay, e muitos outros artistas como Amadeo de Souza-Cardoso e Mário de Sá-Carneiro, que muito admira, mas conhece apenas de ouvir falar (caso dos dois últimos) – essa geração de Orpheu que marca a definitiva, mas tardia, mudança de pensamento em Portugal.
Em 1934, casou com Almada Negreiros e abdicou da sua pintura, para se ocupar com o lar, os trabalhos manuais, a decoração de interiores e os jardins.
Nessa altura, em que vive em Moledo e em que a sua pintura entrava numa fase muito original, opta por se aplicar nos bordados, repletos de alminhas, casamentos, motivos folclóricos e festas, numa mistura entre a tradição e a crença, que pairavam ainda, no seu imaginário infantil: as memórias de Viana.
Por volta do ano de 1948, encerra definitivamente o seu trabalho como pintora a óleo. E quando, em 1970, Almada Negreiros morre, dedica-se ao desenho e à ilustração de livros infantis: sente-se tão perto do imaginário das crianças, que se julga capaz de despertar toda a atenção desse público.
Sarah Affonso morreu em 1983, aos oitenta e quatro anos, treze depois de Almada.
RITA CÔRTE FERREIRA
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